O poder
A TAP é uma empresa pública que o actual Governo decidiu que deveria ser gerida pelos detentores minoritários do seu capital. Como consequência, interesses privados gerem os mais de dois mil milhões de receita da companhia, que a colocam, há longos anos, como o primeiro exportador nacional (sublinhe-se que desde a privatização a TAP cresceu em passageiros transportados mas não em receita gerada).
Com esse poder, os privados, entre outras coisas, compram uma boa imprensa. E comprar é o termo certo, apesar de tudo ser feito legalmente. É que quem vende dois mil milhões compra muita publicidade. O seu direccionamento é um mecanismo de pressão. Como o é, no caso da TAP, a inclusão (ou não) na lista de convidados a viajar gratuitamente na companhia. É este poder, aliado à submissão ideológica da comunicação social aos interesses de classe dos seus donos, que explica «notícias» como as da semana passada.
Diziam elas que a TAP tinha oferecido um melhor e mais moderno contrato de trabalho aos seus tripulantes, que alargara a vigência da contratação para haver mais tempo para a discussão livre, e deixavam o leitor hesitante sobre as razões (seguramente perversas) que explicariam a resistência do sindicato a tanta modernice, a tanta preocupação social, a tanto altruísmo.
Nem um órgão foi suficientemente livre para desmascarar esta fábula contada pela empresa, nenhum se atreveu a desconfiar de tanta bondade patronal. Nem depois de lerem o alerta do sindicato demonstrando que a TAP denunciara o AE com o objectivo de reduzir os rendimentos e degradar as condições de trabalho e tentando reduzir os prazos de vigência.
É este o poder do grande capital. Mas sendo imenso, não é eterno nem omnipotente. No caso, basta os trabalhadores manterem-se organizados, unidos e determinados a não permitir o aumento da sua exploração para poderem resistir e vencer. É um grande basta, mas nele reside o segredo do poder dos trabalhadores.