Viagem à Pátria dos Sovietes

Domingos Lobo

Montaram as suas pilecas do apocalipse, e desembestaram na Revolução de Outubro

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Nunca uma revolução suscitou tanta paixão e ódio como a Revolução de Outubro. O seu amplo sentido social, político e civilizador, o humanismo que lhe estava na génese, a transfiguração das relações entre capital e trabalho, o modelo de organização fundiária, a concepção nova sobre a posse colectiva da terra, a fábrica como integrante espaço de desenvolvimento económico, científico e comunitário, a objectivação histórica que o marxismo, com a complementaridade dinâmica do leninismo, permitiam, estabeleceu um quadro de transformação social, de dignidade, jamais alcançado por um povo na sua luta pela emancipação, pela liberdade e pela justiça.

Um povo violentamente acossado na sua luta heróica contra o absolutismo, o terror medieval dos czares, erguendo de um chão de pedras calcinadas, de milhões de mortos, duas vezes destruído no espaço de trinta anos, a primeira pelas hordas dos sequazes de Nicolau II, a segunda, a mais violenta e sanguinária, pela barbárie nazi, um país novo, febril, moderno e aberto ao futuro, exemplarmente fraterno, internacionalista e solidário, país que respeitou as tradições milenares do seu povo, o essencial das suas referências culturais e em que os meios de trabalho se transformaram em propriedade comum.

Foram estas consignas elementares, alicerçadas numa sólida teoria das ideias revolucionárias (Engels, Marx, Lenine), que buscavam a libertação dos trabalhadores da exploração que sobre eles exercia o grande capital, mostrando ao mundo que era possível uma outra via de paz e de bem-estar, liberta da exploração do homem por outro homem; que era possível progredir na ciência, nas artes, na educação, na economia, sem as garras da fome, da guerra e da usura continuamente grudadas ao pescoço de quem cria e trabalha.

Claro que um tal projecto, o desenvolvimento democrático e dialéctico da história, a criação de uma sociedade de tipo novo, que rejeita a organização capitalista e repressiva do Estado, pondo todos os seus mecanismos ao serviço da comunidade, do todo social, não podia agradar às potências capitalistas ocidentais, que tudo fizeram, ao longo de décadas, para destruir essa ideia superior, levantada das trevas, de uma sociedade que tinha o Homem como elemento central dos seus desígnios.

Por cá, neste ano em que se regista e comemora os cem anos da heróica e épica Revolução de Outubro, as vozes velhas dos arautos que entoam, desde o nosso Abril primeiro, os hinos da desgraça, recentemente remoçados com a iminente chegada do Diabo, com o seu séquito infernal à ilharga, afivelaram a trela, montaram as suas pilecas do apocalipse, e desembestaram na Revolução de Outubro que foi um fartote de ignorância, de irracional raiva, de desnorte sem lastro, de tristeza rendida. Cavaleiros coxos de ignóbil figura.

Coisa de assombro

Há muito esgotadas as três edições de Viagem à União Soviética, de Urbano Tavares Rodrigues, surge nas bancas em tempo justo, a 4.ª edição desse texto límpido, por vezes admirável, a prosa clara e dúctil a expressar a indagação impressiva, a subjectiva e apaixonada análise, de uma viagem realizada em 1973 à URSS, por três escritores portugueses: Urbano, Fernando Namora e Manuel Ferreira. Três semanas em que Urbano e os seus companheiros percorreram esse imenso país, de Moscovo a Leninegrado, o Cazaquistão e o Uzbequistão, esse novo mundo siberiano, tão diferente daquele que o escriba, acarinhado pelas direitas ocidentais, Aleksandr Soljenítsin, inventou, até ao fabuloso Oriente. Em cada lugar que visitou, em cada paragem (algumas forçadas pela fragilidade física de Urbano), o autor de A Última Colina, falou com pessoas, indagou, visitou museus, universidades, bibliotecas, hospitais, na ânsia de entender esse país de todos os contrastes, de descobrir a verdadeira sociedade colectivista, a transformação que os homens e os seus cuidados operaram nesse país outrora dramaticamente desigual, medievo, com chocantes níveis de analfabetismo, numa Pátria em que se operou uma das mais espantosas revoluções técnico-científicas.

Sobre as questões culturais, tão zurzidas pela rastejante intelectualidade ocidental, afirma Urbano, no seu estilo sereno, lúcido e claro: Nos teatros «colcozianos» (para não falar já dos teatros citadinos normais) das mais remotas regiões da URSS representam-se peças clássicas e peças de jovens autores, mesmo de autores trabalhadores. Nas bibliotecas lê-se Puchkine, lê-se Renan, lê-se Sartre, lê-se a Ana Karenina, lê-se Aksionov... Há, entre os universitários, quem me fale de Bóris Vian, de Artaud, de Jarry. Garcia Márquez, como Alejo Carpentier, como Neruda, é lido em tiragens quase incalculáveis.

Onde o tão decantado isolamento cultural do comunismo russo?

Ao detectar o fervor, a juventude das cidades siberianas, diz-nos extasiado: Passei por Omsk, por Novosibirsk, a cidade dos sábios, onde um estilo de vida peculiar se está delineando: fiquei conhecendo particularmente bem Irkutsk e Bratsk.

A construção da Sibéria como mundo moderno é coisa de assombro.

Num tempo de todas as diatribes bebidas na cartilha das intoxicações dominantes, este livro de Urbano abre, na montureira dos dislates a soldo, um espaço digno, limpo e respirável.

Viagem à União Soviética, de Urbano Tavares Rodrigues – Edição Cavalo de Ferro

 



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