Lénine, por Mayakovsky
[…] na fita do boné à luz brilhou –
«Aurora».
Uns correm a pedir ordens,
ou juntam-se a discutir,
outros tiram o retrato com um joelho em terra.
Para aqui, do fundo do corredor,
de lado
veio Lénine
sem ninguém notar.
Já iam por Ilyítch dirigidos para a luta,
mas ainda não o conhecendo por retrato,
empurravam-se, gritavam, mais afiados que navalhas,
os soldados entre si discutindo sobre ele.
E por entre a tormenta ansiada de ferro,
Ilyítch,
como se
estivesse a dormir
andava
parava
e,franzindo os olhos,
fixava-os
cruzando os braços atrás das costas.
[…]
Mas eu sabia
que aqueles olhos captavam
verdadeiramente tudo o que se dizia:
os gritos dos camponeses
e os gritos de guerra,
e a vontade dos operários de Nobélya,
e a vontade dos operários de Putílov.
No seu crânio
moviam-se
cem províncias,
e pensava
em 150 milhões
de pessoas.
Pesou
o mundo
no decurso
dessa noite […]
(Trecho do Poema a Vladimir Ilyítch Lénine, lido pela primeira vez por Mayakovsky em Outubro de 1921. A tradução é de Manuel de Seabra)