Ele é que era o presidente da Junta
O dr. Passos Coelho não pára de nos maravilhar, até nas pequenas coisas. Uma das mais recentes ocasiões em que esse fenómeno se produziu ocorreu há dias, quando do generalizado júbilo nacional suscitado pela notícia de que «Portugal saiu do lixo», como titulou em primeira página um jornal diário. Tratava-se, como se sabe, da decisão de uma agência de rating, a Standard & Poor’s, de conceder ao nosso País a subida de um degrau na escala da sua classificação em matéria de confiabilidade. Logo as operadoras de TV partiram em corrida para entrevistarem figuras destacadas acerca da boa nova, e é claro que o dr. Passos foi, muito compreensivelmente, um dos abordados. Logo ele disse que muito se congratulava com a decisão da agência, mas não demorou a acrescentar, lá por palavras suas, que o mérito da promoção não era tanto do actual Governo como de si próprio, Passos Coelho, e do governo a que presidira. E explicitou um pouco: é que as difíceis tarefas necessárias para a melhoria da imagem de Portugal no mundo económico-financeiro foram realizadas quando ele é que era primeiro-ministro. E, então, muitos cidadãos telespectadores se terão lembrado de uma frase marcante da intervenção de Herman José num dos seus programas: « – Eu é que sou o presidente da Junta!», repetia então ele numa boa humorada e certeira sátira à presunção um pouco ingénua de alguns pequenos autarcas existentes por esse país fora. Sem o querer, Passos encontrara assim um precedente. E um antecipado denunciante da sua própria presunção.
O que os factos provaram
Infelizmente, porém, a empáfia do dr. Passos Coelho não é um caso que nos faça rir como a piada do Herman: vem fazer lembrar os anos em que o quotidiano dos portugueses foi marcado por garrotes que estrangulavam o quotidiano e barravam a perspectiva de um futuro desejável. Não vale a pena enumerar aqui, ainda que sumariamente, as agressões de vária ordem que o governo do dr. Passos infligiu ao povo na aparente convicção de que o caminho da salvação haveria de ser uma espécie de caminho de penitências ou, antecipando um juízo que haveria de ser expresso anos depois por um estrangeiro atrevido e parvalhão, que era preciso corrigir um povo porventura dado a excessos com mulheres e copos. Foi o tempo em que nos repetiam que a generalidade dos portugueses, isto é, o povo, gastava «acima das nossas possibilidades». Os factos vieram a provar o contrário: que o fim da pilhagem de rendimentos e direitos e a sua reversão é que permitiria, como em verdade permitiu, o caminho de alguma recuperação financeira e económica do País. Nada está concluído, é certo, mas que o dr. Passos tenha vindo reclamar a autoria de medidas supostamente positivas lembrando que ele é que era primeiro-ministro é prova pública de que continua atolado no seu engano e também na sua vaidade frustrada. É neste quadro que a memória da frase de Herman na sua sátira vem dar uma pincelada de ridículo à intervenção de Passos. Sim, ele é que era o presidente não da Junta mas do Executivo. E só por escassa lucidez é que pode vir gabar-se disso.