Avanteatro – festa do teatro

José Carlos Faria

Avanteatro ergue-se como uma forte barreira cultural contra a alienação

O Teatro, palco do Mundo, ponto de confluência de todas as Artes e a mais directa de todas elas, integra a Festa do Avante! desde o primeiro momento e, a partir de 1986, passou a contar com um espaço próprio, marcando uma presença ampla e ininterrupta – o Avanteatro. O seu pavilhão, cuja concepção foi alvo de significativas beneficiações técnicas em 1996, 2012 e 2016, procurando viabilizar melhores condições artísticas e de comodidade do público para a apresentação de espectáculos, tem acolhido companhias de referência e jovens criadores, e ainda uma enorme diversidade de iniciativas que vão da dança, ópera, café-concerto, representações de rua, recitais de poesia, música e cinema documental à realização de oficinas para a infância, exposições e debates.

Atento à importância da memória, o Avanteatro não deixou de assinalar efemérides como as do nascimento de Federico Garcia Lorca e Bertolt Brecht em 1998, os 500 anos da primeira representação Vicentina em 2002, os 40 anos da Reforma Agrária com um espectáculo de Teatro-Documento e no centenário de Álvaro Cunhal, a leitura encenada de excertos da sua tradução de «Rei Lear» de Shakespeare, pelos actores do TNDM II. Na edição de 2017 celebra-se os 150 anos do nascimento de Raul Brandão (1867/1930) e os 100 anos do nascimento de Romeu Correia (1917/1996), um dos mais importantes dramaturgos portugueses, o qual procurou sempre através da poética da sua obra afirmar a limpidez do dito contra o interdito turvo e conspurcado da censura fascista que reprimia o acto criador na escrita e na representação do gesto e da palavra.

2017 é também o Centenário da Grande Revolução de Outubro e ela tem lugar alusivo na programação desta edição. Recorde-se que, a partir de 1917, o Teatro desempenhou no jovem Estado Soviético um relevante papel, profundamente ligado ao devir histórico e à transformação da realidade, assumindo um claro comprometimento com as aspirações populares de emancipação e um compromisso estético e político de vanguarda, onde ressaltaram, entre outros, nomes fundamentais como os de Meyerhold e Stanislavsky e os seus célebres métodos de formação de actores, os encenadores Tairov, Vakhtangov e Efreimov, dramaturgos como Maiakovsky ou Vichnievsky, cenógrafos e figurinistas como Popova, Eisenstein, Rodchenko e Tatlin. A energia e a vitalidade fecundas e inventivas da actividade teatral gerava o palco construtivista entendido como uma plataforma industrial de trabalho, com o cenário-máquina em movimento, recorria ao circo, aos coros, às bandas e orquestras, invadia ruas e praças com milhares de figurantes em espectáculos de massas, à agit-prop nos comboios, aos «jornais-vivos» montados para o Exército Vermelho em campanha na frente de batalha durante a Guerra Civil e depois nas fábricas e campos para um público proletário.

Na Sociedade do Espectáculo, instrumental e manipulatória, vinda do «pão e circo» romano para controlo e domínio da plebe, em que estamos imersos e cuja voracidade, corrosiva da democracia, tudo transforma em espectáculo e mercadoria, o Avanteatro ergue-se como uma forte barreira cultural contra a alienação, favorecendo a missão primordial do Teatro, profundamente humano, de divertir e ensinar e assim estimular o espírito crítico cidadão.

O Avanteatro é pois um sinal, sensível, fraterno e solidário, de resistência e liberdade!

O Avanteatro é o Teatro em festa!




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