Twilight Zone

Henrique Custódio

A basófia é o esqueleto que sustenta a figura de Donald Trump e a sua actuação como presidente dos EUA comprova-o diariamente. O termo «fantastic», nos discursos presidenciais (proferidos geralmente em tweets), foi inflacionado para lá do absurdo e deixou escarolada a pobreza de vocabulário e a abundância de desconhecimento deste homem.

Na mesquinhez da personagem, a única grandeza detectável é uma vaidade incomensurável, que o faz tratar as questões altamente sensíveis e delicadas dos países e das políticas internacionais com a arrogância burgessa de um cowboy de pacotilha. Foi assim que, em menos de uma semana, entrou numa escalada verbal insana com a RP da Coreia do Norte, subindo a escadaria das basófias com tal afinco que começa a inquietar o mundo inteiro.

Este homem mente tanto e tão descaradamente que os seus acólitos inventaram, para o justificar, a peregrina teoria da «pós-verdade», que rapidamente evoluiu para a dos «factos alternativos» o que (julgam eles) tornará aceitáveis as inacreditáveis bojardas aldrabonas que a criatura debita dia e noite e madrugada fora.

Mas o que hoje traz à conversa a inacreditável administração Trump é um trabalho de Rita Siza saído no Público e que pergunta, em título, «Será que Cuba usou uma “arma sónica secreta” contra a embaixada dos EUA?».

Parece uma anedota, mas é um facto e a porta-voz do Departamento de Estado, Heather Nauert, explica-o: «certos incidentes» em Havana obrigaram ao retorno de pessoal diplomático norte- americano «por razões de saúde». Mais adiante acrescenta que «não temos respostas definitivas sobre a fonte ou a causa destes incidentes, mas estamos a tratar a situação com toda a seriedade».

Tal é a «seriedade», que já expulsaram dois diplomatas cubanos na embaixada de Cuba nos EUA sem qualquer prova ou sequer indício que expliquem as «razões de saúde» invocadas pelos norte-americanos que saíram de Havana.

Mas a imprensa norte-americana perita nas «pós-verdades» já «traduziu cientificamente» o caso, escrevendo que se trata de uma «arma sónica secreta» instalada pelos cubanos para... perturbar a saúde dos norte-americanos em Cuba.

A administração Trump, insatisfeita por não ter conseguido cortar, pura e simplesmente, as relações diplomáticas entre EUA e Cuba promovidas pelas administração Obama (o máximo que conseguiu foi dificultar as viagens de cidadãos norte-americanos para Cuba e as ligações comerciais entre empresas dos dois países), decide agora promover uma «arma sónica secreta» para, literalmente, lixar a cabeça aos norte-americanos instalados na embaixada em Havana.

Com tanta «realidade paralela», Donald Trump ainda transforma o seu país – que «tanto ama» – numa gigantesca e perigosa Twilight Zone.




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