A Festa do livro na Festa do Avante!

Rui Mota

Livros que dão importantes pistas para ver para lá da cortina de fumo

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No ano em que se assinala o centenário da Revolução de Outubro, é natural que os grandes destaques na Festa do Livro na Festa do Avante! vão para obras dedicadas ao tema. Para além de vários títulos que, ao longo do ano, foram sendo reeditados (nomeadamente textos de Lénine que há largos anos se encontravam esgotados), são três os livros que merecem particular atenção.

Dez Dias Que Abalaram o Mundo, de John Reed, apresenta, nas palavras de Lénine, «uma exposição verdadeira e muito viva de acontecimentos muito importantes para a compreensão do que é realmente a revolução proletária», razão pela qual o recomenda «aos operários do mundo inteiro». Esta edição comemorativa inclui um desenvolvido Posfácio que, além de evocar a obra e a vida do autor, reflecte sobre os avanços e os recuos da experiência do socialismo na União Soviética, sobre as suas conquistas e sobre as consequências da sua derrota, e confirma, na actualidade, o que John Reed escrevera no seu prefácio: «a Revolução Russa é um dos maiores acontecimentos da história da humanidade». Além desse novo texto, esta edição comemorativa é também acompanhada por um DVD contendo o célebre filme Outubro, de Sergei Eisenstein, realizado para comemorar o décimo aniversário da revolução.

Contribuindo para essa compreensão necessária do que foi a revolução proletária, a antologia de textos de V. I. Lénine A Grande Revolução Socialista de Outubro traz textos escritos entre 1917 e 1923, com um grande número traduzido pela primeira vez para português. Como se afirma no prefácio que a acompanha, a «leitura atenta permite compreender a grandeza de Lénine como pensador e como homem de acção, como um revolucionário em que teoria e prática formam um todo indissolúvel, em que a análise concreta da situação concreta […] e a fidelidade aos princípios norteadores do socialismo científico fundado por Marx e Engels palpitam em cada texto». Contribui, além disso, «para o conhecimento de um período decisivo da Revolução de Outubro e dos gigantescos desafios que os bolcheviques tiveram de enfrentar, não tanto para conquistar o poder mas para o defender e consolidar».

Desafios que se mantiveram sempre presentes, como se confirma com a antologia de textos escritos por Álvaro Cunhal, A Revolução de Outubro, Lénine e a URSS. Organizada tematicamente, ao trazer textos escritos ao longo de mais de seis décadas dá ao leitor a capacidade de acompanhar a evolução dos acontecimentos, em Portugal, na URSS e no mundo. Destacando sempre o significado e a importância histórica da Revolução de Outubro, nas suas páginas retrata-se o papel da URSS na luta pela paz e pela libertação dos povos na sua luta contra o imperialismo, as relações de amizade entre o povo português e o povo da União Soviética, o projecto de socialismo do PCP para Portugal, mas também as campanhas anticomunistas, a cisão no movimento comunista internacional e o fracasso de um «modelo» e da perestroika. Em todos os textos se verifica a mesma certeza e a mesma confiança: «Aprendendo com a vida, com a experiência das grandes realizações e conquistas, com o que foi de positivo e de negativo, com as vitórias e as derrotas, e em consequência redefinindo objectivos, o nosso Partido continua defendendo que o capitalismo não resolve, antes agrava os grandes problemas da humanidade e que o futuro pertence, não ao capitalismo, mas ao socialismo e ao comunismo».

Livros com respostas

Só num ano com tamanhas novidades poderia surgir de forma mais discreta este grande acontecimento editorial: a publicação do tomo VIII de O Capital, de Karl Marx, que assim completa a edição em língua portuguesa dos três livros dessa obra fundamental para a compreensão do mundo em que vivemos. O Livro Terceiro, que descreve o processo total da produção capitalista, trata, como nos explica Marx no início, «de encontrar e de expor as formas concretas que crescem a partir do processo de movimento do capital, considerado como [um] todo.»

As contradições do capitalismo estão presentes também noutros livros que vão estar em debate na Festa do Livro. O livro A Nova Rússia É «de Direita» ou «de Esquerda»?, de Bruno Drweski, e A Terceira Guerra Mundial e o Fundamentalismo Islâmico, de Domenico Moro, publicado no início desde ano, dão importantes pistas para ver para lá da cortina de fumo, onde não há imperialismo nem pretensões hegemónicas. Geopolítica, classes, terrorismo, Médio Oriente, são algumas das questões a que estes livros procuram dar respostas.

As novidades, no entanto, também passam pela ficção. Da autoria de Francisco do Ó Pacheco, O Despontar do Elefante com Pés de Barro conta a história do povo de Cineto, no Litoral Alentejano, a luta antifascista e a construção de um grande complexo industrial, com a refinaria e os acessos envolventes, que originou profundas transformações na vida da vila. Das Estradas e das Estrelas, de José Vultos Sequeira, é um romance sobre a vida na oficina, entre mestres e aprendizes, sobre a dureza do trabalho, as resistências, aprendizagens e camaradagens, o amor e a guerra, partidas e regressos. O Portefólio de Sérgio de Sousa traz retratos dos tempos que vivemos, crónicas da vida diária de trabalhadores, de pais e de filhos, de mulheres e de homens, de costumes e de convenções.

Muitas e boas razões, portanto, para visitar a Festa do Livro também este ano.




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