Respostas, títulos e manipulação

Assistimos recentemente a um daqueles episódios em que um título de uma entrevista faz parecer que se disse o que, na verdade, não se disse. Em causa está uma parte que versa sobre questões internacionais da entrevista que a Agência Lusa fez ao Secretário-geral do PCP, divulgada a 14 de Julho e replicada por vários órgãos de comunicação social nos dias seguintes.

Vamos aos factos: comecemos pela pergunta e pela resposta. Questionado sobre a «possibilidade de um texto crítico da ação da Coreia do Norte» merecer o apoio do PCP no Parlamento, Jerónimo de Sousa respondeu: «Desde que seja um voto que não isole essa questão, mas o faça num enquadramento fronteiriço, que responsabilize essa força agressiva [os Estados Unidos da América], permanente, que se deslocou milhares de quilómetros para ali estar, em cima de uma fronteira, para ameaçar com todo o poderio militar.» Lembrou ainda posições há muito assumidas sobre «a solução ideal naquela zona do planeta» para o PCP. Que «a solução tem de ser política», através de um «processo de reunificação da Coreia, sem recurso à violência militar, sem intervenção estrangeira».

Ora, o título que encima os excertos da entrevista faz uma leitura enviesada da resposta, parecendo que está em causa uma troca («condenamos estes se condenarem aqueles»), quando é o PCP quem, desde sempre, rejeita abordagens maniqueístas e simplistas da situação vivida na Península da Coreia e apoia um caminho pacífico para a resolução do conflito. E é isso que está expresso na entrevista: a implementação de medidas que reduzam a tensão na região, entre as quais o fim dos exercícios conjuntos entre os EUA, a República da Coreia e o Japão, e o respeito pela soberania da República Popular Democrática (RPD) da Coreia; o reinício das negociações com vista à reunificação pacífica da Coreia.

O título que a Lusa escolheu foi «PCP admite condenar Pyongyang desde que reconhecidas provocações dos EUA». No entanto, alguns meios (que se destacam por dar mais atenção à decoração do metro de Pyongyang que aos problemas de mobilidade dos portugueses) consideraram o título pouco bombástico e, pegando na tesoura, cortaram. Exemplo? «PCP admite condenar Pyongyang se...» Parece mentira, mas aconteceu.

Toda a mistificação em torno deste não-caso foi feita através de vários e ardilosos truques, a começar pela descontextualização da resposta face à questão colocada. Se a pergunta versava sobre um hipotético texto sobre a situação na Península da Coreia, Jerónimo de Sousa respondeu reafirmando o que para o PCP é central para a resolução do problema e para o encetar de um caminho que leve à paz e à reunificação da pátria coreana. Face a um voto que «corresponda a este quadro, naturalmente não teremos dificuldade em tomar essa posição», acrescentou.

Nada disto altera aquilo que o PCP vem afirmando: respeito pela soberania da RPD da Coreia, diminuição da tensão na região, fim das manobras militares dos EUA e seus aliados, uma moratória aos ensaios nucleares, o cumprimento dos compromissos anteriormente assumidos (e em relação a alguns, nomeadamente no plano energético, os EUA estão em falta) e, respondendo às aspirações do povo coreano, o reatamento das negociações para a reunificação.




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