A segunda aposta
A avaliar pelo que se ouve e vê nos nossos televisores, a direita expulsa do governo pela insuficiência dos resultados que conseguiu nas eleições de Outubro de 2005 abrandou a intensidade da sua «estratégia da intriga» que, visando potenciar as diferenças existentes entre os partidos que tornaram possível a actual solução governativa, era a sua segunda aposta para a queda do Governo e, por consequência, para o seu regresso ao poder. A primeira aposta, como se sabe, era a «chegada do diabo», cavalheiro que havia sido convocado pelo dr. Passos Coelho para o passado Outono e que teve o diabólico atrevimento de faltar à convocação. É triste: o dr. Coelho está tão desacreditado e tão isolado que nem o diabo lhe dá atenção. Quanto às intrigas semeadas e à sua manifesta ineficácia, terá gerado nos arraiais dos intriguistas não apenas um compreensível desapontamento mas também algum grau de incompreensão: eles bem tinham observado ao longo de anos que entre aqueles partidos existem diferenças de grande relevo que, se tudo decorresse como parecia esperável, haveriam de cedo provocar a explosão daquilo a que o dr. Portas, numa ironia sarcástica que afinal quase haveria de lhe ser contraproducente, chamou «geringonça», apodo que acabou por ganhar um travo de simpatia na linguagem corrente. Afinal, não aconteceu explosão nenhuma, tal como o diabo não viera. E os que a tinham previsto ficaram a perguntar-se porquê, sem perceberem o que lhes terá parecido um estranho fenómeno.
Barrar o caminho
Neste quadro, talvez a caridade recomende uma explicação que, não sendo surpreendente para quem tenha olhos de ver e cabeça de entender, bem pode começar por nos lembrarmos de que o fascismo existe, que em sítio nenhum foi completamente extirpado, que no mínimo os ovos dessa serpente sempre sobrevivem algures, e que esta regra se aplica à versão portuguesa do fascismo europeu como aliás não podia deixar de ser. Em seguida, é preciso lembrar que os fascismos ou parafascismos actuais, pelo menos nas suas versões mais discretas, não usam fardas vistosas nem braçadeiras com signos entusiasmantes: preferem andar à paisana e rosnar os velhos anticomunismos em tom menor. Mas existem, e bem se sabe que a direita é o propício terreno onde podem germinar os seus projectos mesmo quando aí tenham de ir sobrevivendo em convívio com princípios democráticos. Ora, como bem se sabe, é histórico que para barrar o caminho não só ao fascismo puro e duro mas também às fórmulas que o podem transportar e de facto também a alguns dos seus objectivos, sempre os comunistas preconizaram e praticaram a unidade de diversas esquerdas. A direita, que também pratica a sua unidade para segurar o poder, não pode espantar-se com isso, ela, cujo PAF está fresco na nossa memória. Mas aplica-se numa segunda aposta, na tentativa de abrir fendas, na aparente surpresa perante uma convergência de esquerdas que a arreda do poder. Ou dizendo-o de outro modo: uma convergência que cumpre a tarefa de defender o povo.