Dai-me os vossos fatigados, os vossos pobres
Numa placa no pedestal da Estátua da Liberdade pode ler-se um poema de Emma Lazarus que nunca foi piada de mau gosto nem dolorosa recordação do paraíso perdido: «Dai-me os vossos fatigados, os vossos pobres / As vossas massas encurraladas ansiosas por respirar liberdade / O miserável refugo das vossas costas apinhadas. / Mandai-me os sem-abrigo, os arremessados pelas tempestades, / Pois eu ergo o meu farol junto ao portal dourado».
Quando, dobrados tantos oceanos e incontáveis perigos, se via por fim o farol junto ao portal dourado, não era «liberdade» que se respirava. Nunca foi assim. Já antes da Liberdade a Iluminar o Mundo se erguer na Ilha de Bedloe, essa liberdade não penetrava nas barrigas fundas dos navios negreiros a vomitar de «imigrantes» como agora lhes chama Ben Carson, secretário da Habitação e do Desenvolvimento Urbano de Trump. A história da imigração nos EUA é uma interminável procissão de injustiças que só desaparecem no horizonte quando novos penitentes as renovam. A primeira lei da cidadania americana, de 1790, restringia-a aos brancos. Durante todo o século XIX, os italianos eram vistos como uma «raça de ratos» e os irlandeses eram caricaturados como macacos: a Europa estaria a «enviar a escumalha», acusava então o partido Know-Nothing. Em 1882 a Lei de Exclusão dos Chineses negava a cidadania a todos os imigrantes desta nacionalidade e, em 1917, a lei era alargada a todos os asiáticos, com a excepção dos filipinos. Em 1929, a Lei das Origens Nacionais estabelecia quotas para cada nacionalidade, fechando a porta a milhões de refugiados alemães que fugiam à barbárie nazi. A procissão continua até aos nossos dias com mexicanos, brasileiros, coreanos... e muitos mais trabalhadores vindos de todas as partes do mundo, forçados a entrar pelo imperialismo, obrigados a sair pelo capitalismo, incessantemente divididos para maior proveito dos patrões.
O clima de terror que Trump, no legado de Obama, fomenta contra imigrantes do Médio Oriente e da América Latina não é, portanto, uma estratégia nova e antecipa uma enorme ofensiva do capital contra o trabalho. Perante estas ameaças, o Primeiro de Maio na terra do Massacre de Haymarket foi um exercício de unidade de classe. Ainda que aquém da edição de 2006, o Dia sem Imigrantes, convocado para este dia, foi pontuado por centenas de greves a que aderiram trabalhadores de todas as proveniências. Em praticamente todas as grandes cidades, os trabalhadores desfilaram em defesa de uma vida melhor e contra as deportações, o fascismo, o racismo e a guerra. Enfrentando a repressão policial, as provocações e os ataques de grupos fascistas, concentraram-se mais de 20 mil pessoas em Los Angeles, 15 mil em Chicago e cinco mil em São Francisco.
Os EUA, nação construída pelos fatigados e pelos encurralados, mas também pelos escravizados que não couberam no poema, só serão o tal farol de liberdade quando mandarem os que hoje são assediados, brutalizados e explorados. Quando só os trabalhadores mandarem.