Reedições oportunas (com laivos de Abril) – EMA, de Maria

Domingos Lobo

Surge agora, em nova roupagem, esse belíssimo, perturbador romance

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Recordo a Maria Teresa Horta dos finais dos anos 1960. Lembro que transportei, na minha bagagem de forçado combatente, para terras do «Cuando-Cubango», o seu Nossa Senhora de Mim, do qual li, à malta enfastiada de tiros, sol, lonjura e absurdos clamores, noites a fio, quase todos os seus versos; que em Luanda soube, através de um despacho censurado da France-Press, do «escândalo» que constituiu, na autoproclamada «Primavera marcelista», As Novas Cartas Portuguesas, (1972) esse ainda hoje esteiro libertário da mulher, desse território do corpo feminino ungido zona livre, liberto graças a esse livro escrito a três corajosas mãos (Maria Teresa Horta, Maria Velho da Costa, Maria Isabel Barreno) dos anátemas inquisidores, das fogueiras regeneradoras que, nesta pátria fendida por ancestrais medos, lhe tolheram o desejo e secaram a fonte durante séculos.

Sabemo-la voz singular, corajosa em país atado, pelas vísceras, à modorraconformada dos dias, ao conservadorismo dos hábitos e dos gestos, (até na poesia, espaço que Rimbaud nos ensinou ser de liberdade livre), e Maria Teresa Horta a remar contra a corrente, a dizer-nos, «desse ideal libertário» de que fala Eduardo Pitta, «a iluminar os contornos de uma teoria pagã da sexualidade», ao arrepio de qualquer obediência de escola, feminismo incluído, ela que entre nós ajudou a fundar as suas «bases doutrinárias» e as ampliou, democratizou, digo eu, nesse labor contínuo sobre a palavra, sobre o seu escuso húmus, nessa contínua descoberta do corpo e suas ressonâncias, do seu latir, sob a pele, de sangue e lava – da essência do Ser.

Editado em 1984, surge agora, em nova roupagem, esse belíssimo, perturbador romance que é EMA.

Várias mulheres, várias gerações de Emas, atravessam este romance, sob a sombra teórica de Francisco Manuel de Melo e suas cartilhas marialvas. Retratos de mulheres em busca de afecto, das que foram tomadas pela loucura, das assassinadas, das que mataram como forma extrema de libertação, de retorno a uma identidade usurpada. E a voz serena, a narrativa poética de Teresa Horta a estabelecer de forma exemplar, nos tempos, na distensão sintáctica, na componente lírica da fala, esse território de monólogos que são gritos lancinantes, de emoções desesperadas, das loucas, das bruxas; mulheres frágeis, desesperadas, em busca de um corpo que só se dá de forma violenta, da sexualidade maculada, mulheres no vórtice de um vulcão que a narrativa nos devolve em forma de arrepio, de medos, de purga: passagem de um tempo velho em busca do tempo justo.


Dinossauro Excelentíssimo, de José Cardoso Pires

Quando em 1972, José Cardoso Pires, então a leccionar em Londres, publicou a fábula Dinossauro Excelentíssimo, estava, provavelmente, longe de imaginar o êxito editorial que este livro iria obter junto do público leitor. Livro que narra, com a superior arte de contar de Cardoso Pires, através da ironia, de um sarcasmo de finíssima colheita, o consulado salazarento, dos primórdios (O Homem que Veio do Nada) até à sátira mordaz que evoca a obscena encenação do seu estertor.

Em 1972 o salazarismo, semanticamente remoçado por Marcelo Caetano, vivia num impasse, desnorte político e social carreado de ambiguidades, de hesitações em relação aos graves problemas nacionais (Guerra Colonial, emigração, presos políticos, desenvolvimento, pobreza), que o regime, atrelado à retórica pífia e às indefinições da propalada abertura, mostrava ser incapaz de enfrentar e resolver. O regime apodrecia, estava moribundo, atrelado a um fantasma e acossado pela efervescência das ruas, pelas lutas nas oficinas e nas fábricas, pelo Teatro, pela Literatura, pelo Cinema: desnorteado e sonâmbulo, incapaz de se erguer do seu próprio pântano.

Foi graças a esse desnorte que este livro de José Cardoso Pires teve um fulgurante, inesperado êxito. Os mais atentos vaticinavam-lhe vida breve (a censura vigiava), com a retirada do livro das bancas e a previsível prisão do autor. Quando, na Assembleia Nacional o deputado Miller Guerra teve a ousadia de afirmar que em Portugal não existia liberdade, foi prontamente admoestado, com a finura de linguagem e com o discernimento crítico de que deu vastas provas no hemiciclo, pelo ultrafascista Casal Ribeiro que a espumar de raiva e para o desmentir citou como prova o infame Dinossauro Excelentíssimo que acaba de ser posto à venda.1 Remédio infalível: o livro vendeu como pãezinhos quentes, fazendo em menos de dois anos, e em edições sucessiva, mais de 25 mil exemplares de tiragem.

Este livro de Cardoso Pires, para além da denúncia da sordidez que o salazarismo foi, fazendo-o com notável e inteligente mordacidade, de raiz surrealizante, traz para a nossa literatura uma nova, e exuberante, forma de abordar os fenómenos históricos e de os demolir através do humor, sujeitando a fábula a dimensões simbólicas e alegóricas que La Fontaine nunca imaginou possível. Um livro que é um marco estilístico na nossa literatura, que se mantém actual, impactante, excelentíssimo. Livro a que as ilustrações de João Abel Manta acrescentam outra leitura, imprimem outro olhar, outra dimensão.
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Ema, de Maria Teresa Horta – Edições D.Quixote/2017

Dinossauro Excelentíssimo, de José Cardoso Pires/João Abel Manta – Edição Leya/RTP-2017

1 Citado por António Reis, no prefácio a Dinossauro Excelentíssimo, p.10, Edição Leya/RTP, Lisboa 2017

 


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