Do livro e da vida
Foi, no passado dia 23, o Dia Mundial do Livro, e em rigor não pode ser dito que ao telespectador português, designadamente ao da RTP, não foi dada oportunidade para dar pela efeméride: houve uma referência pelo menos no telenoticiário principal da operadora pública, no mesmo e/ou noutro canal passaram uns segundos de reportagem com António Costa a falar dos méritos da leitura, talvez ainda noutros momento e lugar tenha havido mais alusões ao Livro. Curiosamente, no mesmo dia assinalava-se (seria excessivo dizer que se festejava, pois pelo menos na TV não houve sinais de festa) o 150.º aniversário da abolição da pena de morte em Portugal pela Lei Constitucional de 1867. É certo que com algum rigor, ou talvez antes com algum pessimismo, poderá admitir-se que entre os portugueses há ainda alguns que estão condenados a morrer antes do dia em que, noutras condições, a morte seria inevitável: os que são obrigados a habitar em lugares na verdade desprovidos de condições de habitabilidade e pagam esse facto com a saúde, num primeiro tempo, e com a vida, mais tarde; os que vivem em permanente subalimentação porque o escasso dinheiro disponível não dá para tudo e os filhos têm de estar sempre primeiro; os que cortam na despesa da farmácia porque têm prioridade a renda da casa ou a conta da EDP e está esgotado o subsídio de desemprego que o filho recebia até há pouco. Estes sendo, é claro, exemplos avulsos e inventados, mas directamente inspirados na concreta realidade que podemos encontrar se a quisermos procurar, se cumprirmos o dever de a buscar. Sem esperarmos, é claro, que no-la mostre a TV, pois que essa tem mais a que se dedicar, como se vê e ouve nos programas apelidados de «desportivos» que nos atafulham os serões e nos mantêm entretidos.
Ao longo dos tempos
É, porém, um pouco de mau gosto e outro pouco de inoportunidade vir aqui falar de morte poucos dias depois de um estremecimento de vida ter percorrido o País: as celebrações do 25 de Abril, não apenas nem principalmente as havidas na solenidade do Palácio de São Bento, onde soaram palavras justas e veementes do PCP, mas também as acontecidas por todo o País, com o povo a celebrar a libertação e a reivindicar que ela prossiga, pois bem se sabe que ela não está concluída apesar dos quarenta e três anos entretanto decorridos e das derrotas pontuais que têm vindo a ser infligidas aos herdeiros do «24», conscientes ou não dessa sua triste qualidade. Em verdade, o 25 de Abril foi uma eclosão de vida a que é preciso ser permanentemente fiel e defender pelo fundamental motivo de a libertação ser um processo sem fim e sem pausas. Na diversidade dos seus canais, a televisão portuguesa não dá sinais de ser sensível a essas quotidianas fidelidade e luta, nem mesmo quando no 25.º dia de cada Abril o juramento popular se renova em actos públicos de que a direita não gosta porque neles são ditas coisas que não lhe agradam. Pior: que de algum modo profetizam que o futuro não será dela. Pela mais funda das razões: porque, ao longo dos tempos, sempre o fluir da vida, ao acontecer, é de esquerda.