Mais valia

Henrique Custódio

«De férias, à distância e sem conhecer os dossiers» foi assim que Assunção Cristas, segundo a própria em entrevista ao Público, assinou o decreto-lei da resolução do BES, acrescentando que «os temas da Banca nunca foram discutidos em profundidade no Conselho de Ministros» do governo a que pertencia, o do «PaF» de azorragada memória.

Isto deu um aranzel por todo o lado – à esquerda, porque tão inconcebível confissão deixa de rastos quem a proferiu e o Governo a que pertenceu; à direita, porque tão inconcebível confissão não deixou margem para a diluir em retóricas.

Não foi por acaso que Passos Coelho se viu forçado a replicar que há matérias «onde por vezes o silêncio é o melhor conselheiro».

Um silêncio que fala, para azar do retórico.

Deixando os aranzéis, há que ponderar algumas coisas.

Assunção Cristas, apesar da aparente ingenuidade da sua proposição, é uma jurista, professora de Direito, membro de um dos maiores escritórios de advogacia, foi ministra e é dirigente partidária de há um ano para cá. Experiência política não lhe falta, tal como formação académica, pelo que «ingenuidade» não adjectiva adequadamente as suas palavras.

A sua afirmação é um ponto de vista e, visivelmente, um ponto de vista de classe. Da teoria marxista, entenda-se, não a «classe» que a dirigente do CDS parece seraficamente polir.

Um dia far-se-á adequada História do que foi o governo de Passos/Portas, mas uma característica já sedimentou no lastro: a irresponsabilidade (palavra abusada por Passos Coelho, quando desentranha lances de ex-chanceler) a nível político, social, económico e financeiro. Foi o desastre generalizado para Portugal, os trabalhadores, os reformados e as pessoas fragilizadas, que neste País envelhecido e com reformas de miséria se medem aos milhões. Passos Coelho disse ao que vinha quando informou os portugueses que «tinham de sair da zona de conforto» ou, se queriam trabalhar, «deviam emigrar» – o que constitui uma declaração ideológica que, sem rebuços, promove a lei do mais forte, privilegia os interesses do capitalismo contra quaisquer presunções de carácter social e pretendeu, até, erradicar o Portugal de Abril construído a partir da Revolução dos Cravos.

Os seus prosélitos na governação foram farinha do mesmo saco e o que os entretinha era as suas agendas a tecer interesses próprios, de amigos e de correligionários, ficando os interesses do Estado nem para as calendas, porque, de todo, não tinham lugar nas azáfamas governativas.

Ao dizer o que disse, Assunção Cristas não foi cândida nem ingénua, mas sincera e, ó deus! assertiva, porque deve considerar a frontalidade uma «mais valia» (como agora dizem todos, a propósito de tudo). Mais valia que esta gente tivesse vergonha – mas não tem.

 



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