A teia
O caso da saída de mais de 26 mil milhões de euros para paraísos fiscais (só entre 2011 e 2015), 10 mil dos quais sem qualquer tipo de fiscalização da Autoridade Tributária para paraísos fiscais, durante o governo PSD/CDS, continua a fazer correr tinta. Paulo Núncio, Secretário de Estado das Finanças à época é, para já, o rosto sobre o qual incidem os holofotes. A uma primeira tentativa com que procurou alijar responsabilidades para cima dos serviços dos serviços do Ministério seguiu-se o pedido de demissão dos cargos que ocupava actualmente no CDS para, supostamente, libertar o partido do embaraço (o tal partido do contribuinte!). Da parte do PSD, vai reinando, para já o silêncio, e até a guerrilha em torno da CGD perdeu gás.
Entretanto sucedem-se declarações de incredibilidade e indignação. Como foi possível?! Como é possível?! E das mais insuspeitas penas saem escritos que clamam por medidas de fundo para «regular» o movimento de capitais e «taxar» esse mesmo corropio de milhões que circulam na era digital, supostamente sem pátria, supostamente sem rosto. Mas só quem estiver esquecido é que não se recordará das mesmas vozes iradas a clamar por justiça, e as promessas de sempre apontando a medidas mais apertadas, como vimos e ouvimos recentemente a propósito do chamado Luxleaks ou dos célebres papéis do Panamá. Assim será durante os próximos dias até que o assunto perca o interesse dos media e seja substituído por outro. Depois é só deixar a poeira assentar e passar à frente, até ao próximo escândalo.
Da nossa parte não só não calaremos a nossa voz, como não faremos deste assunto uma questão episódica na nossa intervenção. Assim foi e assim tem sido, nas dezenas de propostas e intervenções que o PCP desenvolveu ao longo dos anos em que foi denunciando a comprometedora teia que PSD, CDS, e também o PS, foram criando e que permite a máxima ligeireza face aos ricos e poderosos e uma malha severa e apertada para quem vive do seu trabalho. São precisas medidas que ponham fim a esta indignidade, mas o problema de fundo, seja em Portugal, seja lá fora, por muitos Paulos Núncios que possam por aí andar, radica essencialmente num sistema que está feito para servir quem serve: o capital!