A voz das mulheres
O Movimento Democrático de Mulheres decidiu convocar para o próximo dia 11 de Março uma manifestação em Lisboa sob o lema «A voz das mulheres pela igualdade. Desenvolvimento. Direitos. Paz». Em boa hora o fez.
Há problemas gritantes que persistem e se agravam
Em todo o mundo, e Portugal não é excepção, o 8 de Março, Dia Internacional da Mulher, é assinalado com acções de luta, convívio e debate que dão destaque aos problemas, aos anseios, aos direitos das mulheres. É verdade que as mulheres têm problemas, expectativas e direitos todos os dias do ano. É verdade que as mulheres portuguesas têm dado um contributo imprescindível à luta mais geral dos trabalhadores – basta pensar na persistente e vitoriosa luta pela reposição das 35 horas de trabalho na Administração Pública, em que sectores de grande concentração de mão-de-obra feminina, como as autarquias locais, foram decisivas para o desfecho final dessa resistência.
As mulheres lutam, muito, todos os dias. Mas a manifestação de 11 de Março é um momento privilegiado para celebrar o 8 de Março, dar visibilidade e amplitude às reivindicações próprias das mulheres, associando-as à resolução dos problemas do País. Aos mais distraídos pode parecer estranho que em pleno século XXI haja uma manifestação de mulheres num moderno país da desenvolvida Europa. Mas se é verdade que a situação das mulheres portuguesas deu passos de gigante nas últimas quatro décadas, fruto em particular das conquistas da Revolução de Abril, há problemas gritantes que persistem e, nalguns casos, se agravam.
Razões de sobra
Pensemos no emprego, nos salários, na precariedade, na desregulação dos horários, no custo de vida, na exploração. No desemprego, que continua com uma forte componente feminina, em particular nas jovens mulheres e nas desempregadas de longa duração. Na emigração forçada, ou na pobreza que se reproduz num ciclo de baixos salários que geram reformas baixas.
Pensemos nos direitos associados à função social da maternidade e nas limitações que em quase todos os locais de trabalho são impostas às mães trabalhadoras (e aos pais, diga-se em abono da verdade). Nas creches, jardins de infância e tempos livres caros e sem vaga, na insuficiência dos apoios sociais, nos transportes públicos caros, desconfortáveis, com horários incompatíveis uns com os outros e mais ainda com as vidas das crianças e das famílias.
Pensemos na habitação, na saúde, na Segurança Social, no desporto e na cultura e nas dificuldades específicas que as mulheres têm nestas áreas. Ou nos números e nas histórias impressionantes de mulheres vítimas de violência.
Pensemos na ofensiva ideológica relativamente ao papel da mulher na sociedade que se tem refinado e diversificado nos últimos anos: da pressão para que todas sejam super-mulheres lindas e maravilhosas profissionais, esposas, mães, donas de casa; da sordidez da banalização da prostituição e do tráfico de mulheres; da responsabilização das mães trabalhadoras pela «falta de valores» da sociedade em geral e das novas gerações em particular.
Pensemos no contributo que as mulheres dão hoje para o desenvolvimento do País, na produção, nos serviços públicos, na cultura, na ciência, no desporto. E no que poderiam dar mais ainda ao País se os seus direitos fossem mais respeitados, as suas capacidades estimuladas e valorizadas, se não andassem tão estoiradas a tentar empurrar todas as esferas das suas vidas para a frente.
Lá estaremos!
Nesta manifestação fazem falta todas estas vozes, reivindicações, anseios. Cabe a afirmação de que o País precisa das mulheres para se desenvolver, para produzir mais e melhor, para ser mais justo. De que a luta por um Portugal com futuro passa pela igualdade na lei e na vida.
Mas esta manifestação será também um apelo. A que outras mulheres se juntem à causa da emancipação, que exijam os seus direitos, que façam ouvir a sua voz, a sua dignidade, a sua vontade.
Um apelo à paz. Pelo fim das guerras imperialistas que empurram milhões de seres humanos, milhões de crianças e jovens, para dramas que só podemos imaginar, para a exploração e o tráfico. Para que se ponha um ponto final no recrudescimento de concepções retrógradas sobre o papel das mulheres em muitos países do mundo.
Igualdade, desenvolvimento, direitos, paz – as vozes das mulheres levantaram-se muitas vezes ao longo da história por estes motivos. Dia 11 de Março lá estaremos.