Bipolar

Correia da Fonseca

Na passada segunda-feira, o serão da RTP1 foi de algum modo bipolar, digamos assim. O «Prós e Contras» abordou um tema grave e altamente polémico, como aliás a troca de argumentos no decorrer do programa claramente comprovou: a eutanásia. A escolha do tema foi, assim, um acto de alguma coragem, pelo menos porque veio contrariar o desejo, inconfessado ou não, dos que entendem que o assunto nem sequer deve ser abordado com largueza, como se as condições em que ocorre o fim de cada vida não fosse uma questão que interessa, e muito, a cada um de nós. Porém, imediatamente a seguir a RTP1 transmitiu mais um episódio do que designa por biografia de José Stáline e que é de facto mais uma peça do bombardeio mediático anticomunista que prossegue intensamente vinte e cinco anos depois do final da União Soviética. Não é condenável, naturalmente, que sejam feitas e divulgadas biografias do antigo dirigente da URSS e nelas seja levantado um inventário realista e inteligente da sua acção de primeiríssima importância na História contemporânea, mas é exigência elementar que, como acontece com qualquer biografia de personalidades discutidas, tais relatos não sejam construídos pelos inimigos do biografado. É, afinal, a antiga mas agora frequentemente invocada necessidade da inclusão do contraditório, condição mínima para quem se aplica a um trabalho desse género e também para quem, ao divulgá-lo, surge como tácito avalista do seu conteúdo. Neste quadro, não sendo difícil pressentir que pelos quatro cantos do mundo acontecem pressões para que um certo tipo de biografias de Stáline seja largamente difundido, não se incorrerá em risco excessivo ao pressentir que também a transmissão desta biografia no canal principal da operadora pública de TV estará nos antípodas do sinal de coragem que foi a discussão da eutanásia no «Prós e Contras».

A História ensina que…

Mesmo no nosso País e referindo apenas trabalhos editados em livro, há material bastante para organizar um inventário não excessivamente desequilibrado e manipulado da acção de José Stáline. Acontece, porém, que uma das linhas fortes da propaganda anticomunista de extracção primária e reles é a tentativa de sinonimizar Stáline com todas e quaisquer formas do movimento comunista internacional, logo complementada com a miserável simetria entre Stáline e Hitler, capítulo central da não menos infame simetria entre comunismo e nazismo. Não se trata de colocar fora da crítica uma personalidade e a sua acção concreta, mas é imperiosa no plano da honestidade intelectual a necessidade de integrar essa acção na sua circunstância, nomeadamente que é a de uma revolução assediada e agredida tanto internamente pelas forças mais reaccionárias como externamente pelo imperialismo. Será adequado recordar que em qualquer praça cercada, enfrentando ataques de toda a ordem e prováveis infiltrações que é forçoso defender a jovem democracia conquistada pelas massas trabalhadoras e populares até que a vitória esteja consolidada. Aliás, a experiência histórica ensina que as revoluções podem ter fases de dureza extrema. A Revolução Francesa, de que emergiram o reconhecimento generalizado dos Direitos do Homem e várias formas de Liberdade, guilhotinou milhares de franceses e ainda hoje é odiada por sectores conservadores da sociedade francesa. Mesmo os conspiradores portugueses de Dezembro de 1640 assassinaram Miguel de Vasconcelos e defenestraram o seu corpo. Por tudo isto e o muito mais que aqui não cabe, é legítimo manter a esperança de que num dia ainda aparentemente distante a RTP transmita uma biografia de Stáline construída com a serenidade e a lucidez que por agora são improváveis e que os «documentos» fornecidos pelos serviços «ocidentais» de propaganda ou suas efectivas filiais sejam finalmente arrumados em arquivos definitivos. Até lá, resta-nos ter lúcida consciência do que nos é servido. E, tanto quanto possível, além de termos paciência, ir avisando toda a gente, como cantava e decerto ainda canta Francisco Fanhais.




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