Objectividades
Passou na televisão um «resumo» do «conflito na Síria», onde revimos o que se chamou «o começo». É pena que os canais de televisão não «revejam» mais vezes, para que finalmente se veja (com «distanciamento», como gostam os opinadores de serviço) a vergonha que foi toda aquela literal armação.
Lá vimos mais uma vez uma arruaça de meia dúzia de provocadores, a perturbar a pacatez de uma rua na Síria e a receber, dos repórteres televisivos, inflamadas apreciações chamando àquilo uma «revolta popular contra o regime». Infelizmente, faltaram «apontamentos de reportagem» igualmente esclarecedores, como uns marginais a agitar armas ligeiras em viaturas abertas e rodando pelos povoados esbaforindo os transeuntes. Visto à distância, é ainda mais confrangedor do que as «reportagens» com um bando de arruaceiros a derrubar uma estátua de Saddam numa praça de Bagdad, na sequência da invasão dos EUA.
Mais tarde, há-de fazer-se a história desta sinistra maquinação norte-americana para desestabilizar a Líbia e a Síria, enquanto o Iraque já ardia nas intervenções militares directas dos EUA, a pretexto de uma grosseira mentira de «armas de destruição maciça».
A responsabilidade dos EUA nos «conflitos do Médio Oriente» é muito vasta, incluindo a organização, treinamento e financiamento da Al Qaeda para combater os soviéticos no Afeganistão, decorrendo daí uma intrincada rede de apoios a sucessivos grupos terroristas, apoiados pelos EUA e aliados na Europa consoante as conveniências e os «tabuleiros estratégicos» que foram engendrando para as conveniências políticas do momento (ficou célebre a prosápia do presidente francês Sarkozy a dizer, publicamente e nas vésperas da «primavera árabe» urdida na Líbia pelos «aliados ocidentais», que queria para a França «um terço do petróleo líbio»).
O apoio dos EUA (e dos «grandes» da UE) aos bandos de terroristas travestidos de «insurgentes» que, de cambulhada com o ISIS, encurralaram milhões de pessoas em cidades da Síria e do Iraque está patente na cobertura jornalística aos cercos das cidades de Alepo, na Síria, e de Mossul, no Iraque. No primeiro, só mostrando feridos civis e destruições das zonas onde estão civis encurralados, responsabilizando o exército sírio e a aviação russa; no segundo, realizado pelo exército iraquiano com auxílio da aviação norte-americana para a reconquista de Mossul, as reportagens acompanham o exército iraquiano num registo heróico e só mostram bombardeamentos ao longe e sem vítimas – visíveis.
Os EUA e aliados puseram o Médio Oriente a ferro e fogo, o que desembocou numa avalanche de refugiados para a Europa. E, aí, as reportagens são cada vez menos complacentes – com toda a objectividade, pois claro. O dono manda e a voz obedece.