Trump enterra Transpacífico
O próximo presidente dos EUA confirmou, segunda-feira, 21, a intenção de retirar os EUA do Acordo de Associação Transpacífico (TTP). Donald Trump disse ser preferível adoptar textos bilaterais e criticou os documentos até aqui assinados ou negociados pela administração Obama, acusando-os de serem responsáveis pela desindustrialização e perda de postos de trabalho em território norte-americano.
Os EUA foram os principais promotores do TTP, subscrito a 4 de Fevereiro deste ano. Representando cerca de 40 por cento do total do PIB mundial, e incluindo 12 países – EUA, Austrália, Brunei, Canadá, Chile, Malásia, México, Nova Zelândia, Perú, Singapura, Vietname e Japão –, o tratado era assumidamente uma iniciativa norte-americana para conter o progresso económico da República Popular da China e o reforço da cooperação desta com os países da Ásia-Pacífico.
A confirmar-se a saída dos EUA do TTP, os países da Associação das Nações do Sudeste Asiático e a China têm a oportunidade de avançar com um acordo multilateral para a região que inclui 16 países e 30 por cento do PIB global. Será, também, o fim do TTP. Pelo menos é o que considera o primeiro-ministro do Japão, Shinzo Abe, para quem o acordo deixa de fazer sentido sem os norte-americanos.
O TTP foi alvo de intensa contestação popular no Perú, no passado fim-de-semana, com milhares de peruanos a manifestarem-se na capital, Lima, onde decorreu a cimeira do Fórum para a Cooperação Económica Ásia-Pacífico
...e desenterra ódios
Paralelamente, nos EUA, as nomeações de Trump para a futura administração dos EUA continuam a ser um barómetro das políticas que pretende implementar. Depois de ter designado o ex-banqueiro Steve Bannon e o líder do Comité Nacional Republicano e entusiasta da formação do Tea Party [facção ultramontana do Partido Republicano], Reince Priebus, ambos conhecidas figuras afiveladas às teorias da supremacia branca, para o seu círculo de conselheiros, continuam a surgir com insistência os nomes de Rudolph Giulliani, ex-presidente da Câmara Municipal de Nova Iorque, e do general James «Mad Dog» Mattis para as pastas dos Negócios Estrangeiros (secretário de Estado) e da Defesa, respectivamente
O primeiro, entre outras façanhas, tem curriculum na aplicação de um sistema de vigília policial de recorte racista em Nova Iorque. O segundo é um militar de carreira com serviço prestado nas invasões do Afeganistão e do Iraque e um opositor ao acordo firmado com o Irão em torno da questão nuclear.
Para procurador-geral (ministro da Justiça) foi confirmado, entretanto, Jeff Sessions, férreo contestatário do acolhimento de imigrantes e refugiados nos EUA. Para dirigir a CIA avança Mike Pompeo, outro opositor à pacificação das relações dos EUA com o Irão. Um e outro são associados ao Tea Party e a posições racistas e xenófobas.
As nomeações de Trump estão a agudizar as tensões no país. Sucedem-se os protestos públicos contra o reforço de posições segregacionistas e belicistas na Casa Branca. Mas sucedem-se igualmente as manifestações abertamente de cariz nazi-fascista. Domingo, 20, em Austin, Texas, membros do grupo «White Lives Matter» [a vida dos brancos importa] envolveu-se em confrontos com activistas da organização «Black Lives Matter», a qual tem denunciado e protestado contra o assassinato e a violência exercida pela polícia sobre negros e outros cidadãos não-caucasianos.
Um dia antes, no sábado, 19, o Instituto de Política Nacional, facção mais acirrada do movimento Alternativa de Direita, realizou uma conferência em Washington a poucos metros do Museu do Holocausto, reiterando o habitual discurso de ódio.
Dados oficias indicam que os crimes de ódio por motivos de raça, orientação sexual, género ou religião aumentaram seis por cento nos EUA em 2015.