Distorções e apagamentos
As últimas semanas foram marcada pela polémica em torno dos salários dos administradores da Caixa Geral de Depósitos. Os media foram fazendo notícia dos valores que estes gestores públicos auferem, culminando no chumbo de uma proposta do PCP que introduzia como limite 90 por cento do salário do Presidente da República, o equivalente ao salário do primeiro-ministro. Foi isto que se passou no dia 19.
No entanto, a abertura dos noticiários das 20 horas nos três canais de televisão conseguiu deturpar a realidade.
A RTP abriu com declarações do Presidente da República, seguida de declarações de outros e só a meio da peça apareceu a referência à proposta do PCP, chumbada por PS e PSD. Já a SIC emitiu uma peça que começou pelos factos: PS e PSD chumbaram a proposta do PCP. Mas tanto o lançamento pela jornalista em estúdio como os rodapés contavam uma história diferente, destacando as intervenções sobre o tema no plenário da Assembleia da República, fazendo parecer que a proposta vinha de outras bancadas. A TVI optou por fazer o contrário, lançando uma peça sobre o chumbo da proposta do PCP que, na primeira metade, reproduzia as declarações de quem votou contra (PS e PSD) e só fazendo uma discreta referência à origem da proposta ao fim de um minuto e 50 segundos.
Mas também um dos principais jornais nacionais, numa notícia publicada online pelas 17 horas, omitia o PCP do título da notícia, apesar da votação da proposta ter sido feita durante a manhã. Perante o erro crasso, lá foram emendar a mão e colocar o PCP no título uma hora depois.
Eis mais um exemplo de como, muitas vezes de forma discreta, se oculta a intervenção do PCP no espaço mediático. Porque a verdade é que só havia uma proposta para limitar os salários dos gestores do banco público: a do PCP. Uma proposta que, sendo chumbada, pôs a nu a hipocrisia do PSD: depois de rasgar as vestes pelo valor pago aos administradores da Caixa, juntou-se ao PS para chumbar a única proposta que impunha limites objectivos.
Abriu o mercado
do comentário político
Nos últimos dias ficámos a saber que a CMTV vai inovar no comentário político com uma nova contratação: nada menos que a presidente do CDS, Assunção Cristas. A nova grelha é plural quanto baste: Cristas às segundas; Luís Campos Ferreira, ex-secretário de Estado do PSD, às quintas; e Ana Gomes, deputada do PS no Parlamento Europeu, às sextas.
Se esta escolha tem como novidade a inclusão de uma líder de um partido, coisa única na televisão portuguesa, replica a exclusão de comunistas destes espaços. Tal como fazem RTP, SIC e TVI, para quem basta dar espaços de opinião e comentário sem contraditório a dirigentes e militantes de PS, PSD, CDS e BE.
Mais um contributo para o apagamento da voz do PCP do espaço mediático, como o Observatório Europeu de Jornalismo reconheceu em Maio.