PCP contra concessão de imóveis históricos a privados

Atentado ao património e à memória

O PCP con­si­dera ina­cei­tável a pro­posta do Go­verno de con­ces­si­onar a pri­vados 30 imó­veis his­tó­ricos para fins tu­rís­ticos, co­lo­cando-se assim em causa a me­mória co­lec­tiva do povo por­tu­guês.

A al­ter­na­tiva não é entre con­ces­si­onar e de­gradar

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Num co­mu­ni­cado do Ga­bi­nete de Im­prensa, emi­tido faz hoje uma se­mana, o Par­tido re­pudia o que con­si­dera ser a en­trega, por um pe­ríodo que pode ir até 50 anos, de «um con­junto de mo­nu­mentos, pa­tri­mónio cul­tural de­cor­rente da nossa his­tória co­lec­tiva, a grupos pri­vados para mon­tarem o seu ne­gócio, em de­tri­mento da plena fruição pú­blica». Os edi­fí­cios em causa, acres­centa o PCP, têm «ca­rac­te­rís­ticas his­tó­ricas e valor sim­bó­lico e cul­tural», al­guns dos quais têm cen­tenas de anos de exis­tência, en­cer­rando em si «ele­mentos sobre pe­ríodos e epi­só­dios im­por­tantes» da his­tória de Por­tugal.

Ao en­vol­verem a me­mória co­lec­tiva do povo, su­blinha, estes imó­veis «não podem ser ali­e­nados ou al­te­radas as suas ca­rac­te­rís­ticas, no­me­a­da­mente fí­sicas e de usos, apenas por mera von­tade do Go­verno e de in­te­resses pri­vados, in­de­pen­den­te­mente de pres­sões que estes possam exercer». O ar­gu­mento avan­çado pelo Go­verno para avançar com a me­dida – de que «mais vale con­ces­si­onar do que deixar cair» – re­pre­senta apenas, na opi­nião do Par­tido, uma «forma de fugir à res­pon­sa­bi­li­dade do Es­tado face ao pa­tri­mónio cul­tural em Por­tugal», con­sa­grada aliás na pró­pria Cons­ti­tuição.

Ora, não há só estas duas op­ções, ga­rante o PCP, para quem o que o Go­verno de­veria fazer era «ela­borar um pro­grama de re­cu­pe­ração pro­gres­siva do pa­tri­mónio, dis­po­ni­bi­lizar as verbas ne­ces­sá­rias para a sua con­cre­ti­zação e co­locar esse pa­tri­mónio ao ser­viço do povo por­tu­guês e de quem nos vi­sita». O que não se pode fazer é «trans­formar o pa­tri­mónio num ne­gócio em que quem lucra são os grupos pri­vados à custa da me­mória e da his­tória co­lec­tiva do nosso País», con­clui.

Me­didas al­ter­na­tivas

Ma­ni­fes­tando a re­jeição do pro­grama anun­ciado na vés­pera pelo Go­verno do PS, o Par­tido ex­pressa no co­mu­ni­cado a exi­gência de «sus­pensão dos con­cursos já lan­çados ou a lançar», de in­ter­rupção da ali­e­nação de bens pa­tri­mo­niais do Es­tado, no­me­a­da­mente do pa­tri­mónio clas­si­fi­cado, e a sua en­trega a ges­tões pri­vadas. O PCP re­clama ainda o início de um «de­bate alar­gado sobre o pa­tri­mónio cul­tural, a sua re­cu­pe­ração e uti­li­zação», que cul­mine na apro­vação e im­ple­men­tação de um Pro­grama Na­ci­onal de Emer­gência para o Pa­tri­mónio Cul­tural.

Re­al­çando que a po­lí­tica pú­blica de Pa­tri­mónio «não pode estar su­jeita ou su­bor­di­nada ao "mer­cado" e à po­lí­tica de tu­rismo», o PCP su­blinha que, pelo con­trário, ela deve «in­ten­si­ficar a li­gação cul­tural entre as po­pu­la­ções e o pa­tri­mónio» e in­tegrá-lo na vida e quo­ti­diano do País. Daqui re­sul­tará, ga­rante, a sua «va­lo­ri­zação e pre­ser­vação vi­vida e fruída co­lec­ti­va­mente». É desta forma que se va­lo­riza e afirma o País na oferta tu­rís­tica e não através da «con­cessão ou pri­va­ti­zação de im­por­tantes com­po­nentes do pa­tri­mónio, delas alhe­ando o povo e os há­bitos cul­tu­rais».

 

For­ta­leza da re­sis­tência

O facto de entre os imó­veis his­tó­ricos que o Go­verno pre­tende ali­enar constar a For­ta­leza de Pe­niche cons­titui, para o PCP, «um dos mais sig­ni­fi­ca­tivos ata­ques à me­mória co­lec­tiva dos por­tu­gueses, par­ti­cu­lar­mente sobre um pe­ríodo da nossa his­tória con­tem­po­rânea que deve ser do co­nhe­ci­mento das fu­turas ge­ra­ções». Ao mesmo tempo que re­pre­senta uma pro­funda «ma­ni­fes­tação de des­prezo para com a luta an­ti­fas­cista em Por­tugal que se de­sen­volveu du­rante quase meio sé­culo».

O Par­tido acusa ainda o Go­verno de ig­norar a «im­por­tância his­tó­rica e cul­tural de um es­paço onde não é pos­sível con­ci­liar a ac­ti­vi­dade ho­te­leira e tu­rís­tica com a ne­ces­si­dade de pre­servar in­te­gral­mente as suas ca­rac­te­rís­ticas pri­si­o­nais his­tó­ricas». Para o PCP, o que de­veria estar a ser dis­cu­tida era a «va­lo­ri­zação e di­vul­gação do es­paço en­quanto tes­te­munho da sua função pri­si­onal du­rante o fas­cismo, de­sig­na­da­mente, com a ac­tu­a­li­zação e en­ri­que­ci­mento do pro­jecto de mu­se­a­li­zação exis­tente».

Também a Di­recção da Or­ga­ni­zação Re­gi­onal de Leiria do PCP emitiu um co­mu­ni­cado, no dia 30, re­la­tivo a esta de­cisão, rei­te­rando a po­sição de re­púdio ex­pressa no co­mu­ni­cado do Ga­bi­nete de Im­prensa. A de­cisão de en­tregar a For­ta­leza de Pe­niche à ex­plo­ração ho­te­leira pri­vada re­pre­senta «não só uma opção de de­sin­ves­ti­mento pú­blico na cada vez mais ne­ces­sária ba­talha pela pre­ser­vação da me­mória his­tó­rica e em de­fesa da de­mo­cracia, como, pela sua na­tu­reza, cons­titui uma la­men­tável ati­tude de des­prezo para com a me­mória e honra de todos aqueles que, muitas vezes com a pró­pria vida, lu­taram du­rante quase meio sé­culo pela li­ber­dade e a de­mo­cracia e contra os crimes do fas­cismo».

Também a URAP ma­ni­festou a sua opo­sição à de­cisão do Go­verno, lem­brando que a pre­ser­vação do Forte de Pe­niche como lugar de re­pressão e re­sis­tência e como es­paço de «es­cla­re­ci­mento para as jo­vens ge­ra­ções sobre o que foi a di­ta­dura fas­cista» é uma «exi­gência de res­peito pela me­mória».

A For­ta­leza de Pe­niche foi uma das mais im­por­tantes pri­sões po­lí­ticas do fas­cismo, entre 1934 e Abril de 1974. Por lá pas­saram 2487 presos, que ali so­maram muitos mi­lhares de anos de ca­ti­veiro, maus tratos, tor­turas e cas­tigos. Local de vi­o­lência, esta prisão – como ou­tras – foi também um es­paço de luta e re­sis­tência e também de apren­di­zagem: muitos presos apren­deram ali as pri­meiras le­tras, aju­dados pelos seus ca­ma­radas. Da his­tória da For­ta­leza de Pe­niche, que é também a his­tória de Por­tugal, constam também co­ra­josas e en­ge­nhosas fugas, como a de An­tónio Dias Lou­renço, de 1954, e a de Álvaro Cu­nhal e ou­tros nove des­ta­cados di­ri­gentes e qua­dros do Par­tido, em Ja­neiro de 1960, que se re­velou es­sen­cial para o der­rube do fas­cismo, 14 anos de­pois.

 



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