Resposta à crise no leite
Em marcha lenta, mais de 60 tractores e outras máquinas agrícolas percorreram, anteontem, a Estrada Nacional 109, entre Ovar e Estarreja, em protesto contra a gravíssima situação que o sector do leite e da carne enfrenta.
Ditadura imposta pelas grandes superfícies comerciais
Esta acção de luta – promovida pela Confederação Nacional da Agricultura (CNA) e pela Associação Portuguesa de Produtores de Leite e Carne – iniciou-se com concentrações em Válega (Ovar) e Estarreja.
Os produtores de leite e carne seguiram, depois, até junto de três superfícies comerciais, em Estarreja, onde, com os veículos parados, foi feito um cordão humano, numa forma simbólica de protesto contra a ditadura imposta pelas grandes superfícies comerciais que, com as suas promoções e as ditas «marcas brancas», fazem importações desnecessárias e esmagam em baixa o preço à produção nacional.
Dali, a coluna de tractores seguiu até à Câmara Municipal de Estarreja, onde foi entregue um documento com as propostas e reclamações dos agricultores.
Solidariedade do PCP
Esta acção contou com a presença do PCP, que se fez representar por João Frazão, da Comissão Política do Comité Central (CC), Tiago Vieira, responsável do distrito de Aveiro e membro do CC, e Carla Martins, do Executivo da Direcção da Organização Regional de Aveiro (DORAV) e eleita na Assembleia Municipal de Estarreja.
Numa nota da DORAV, divulgada no mesmo dia, o PCP salienta que com aquela «jornada de luta» os produtores de leite «dão continuidade a um processo reivindicativo com vários anos e muitos momentos».
Estão acção, segundo os comunistas de Aveiro, «coloca mais uma vez a tónica na necessidade de uma estrutural inversão das políticas que ao longo dos últimos anos se vêm impondo aos agricultores e cujas consequências (défice alimentar, encerramento de explorações, perda de soberania) são por demais evidentes».
Medidas insuficientes
No dia do protesto, o Governo anunciou um novo conjunto de medidas de apoio para o sector do leite. Para os comunistas, as medidas avançadas «confirmam que a luta é sempre o caminho para alcançar os direitos, reivindicações e aspirações das diferentes camadas da população». No entanto, embora indo numa «direcção positiva», constituem «um mero paliativo, se não forem acompanhadas de medidas de fundo para o sector, designadamente no que toca à imperativa necessidade de restabelecer um sistema de quotas de produção na União Europeia e à incontornável necessidade de uma enérgica intervenção do Governo para impedir que prossigam as operações de pressão para baixo dos preços à produção que as grandes superfícies vêm exercendo sobre os produtores, levando muitos à ruína».
Em declarações à Lusa, João Dinis, da CNA, considerou também «insuficientes» os apoios anunciados pelo ministro da Agricultura. «Não basta, nem resolve os problemas, injectar dinheiro, ainda que as ajudas sejam bem-vindas e que correspondam a reclamações nossas. Mas é necessário que seja reposto um sistema público de controlo da produção como foram as quotas leiteiras», assinalou, defendendo, entre muitas outras medidas, o aumento dos preços à produção de leite e carne, a redução dos custos de produção, o fim das penalizações sobre quem ultrapassar o limite interno de produção de leite e a reposição do desconto à electricidade verde.