Velhas modernices – I
Com excepção da fase presidencial de Cavaco Silva, onde o efeito pretendido e alcançado era o efeito múmia de santa comba, qualquer governante adora dar um ar modernaço. Há coisas bem piores de que presumir, e este artigo não existiria se normalmente essa propensão para a modernice não viesse acompanhada de um defeito bem pior: a convicção (real ou simulada) que uma prática do século XIX, com um chip, passa a visionária inovação.
O Ministro do Ambiente (onde o Governo enfiou uma parte dos transportes públicos, deixando o resto nas Infraestruturas) na sua última entrevista deslumbrou com o seguinte: os passes mensais estão ultrapassados, o que faz falta é a via verde para os transportes públicos (com um nome mais modernaço, tipo cartão da mobilidade como o ministro propôs). E de que estudo aprofundado retirou sua excelência esta conclusão? De nenhum, nem sequer daqueles onde se encomendam as conclusões. Pois se não foi de estudos, como concluiu tão brilhantemente? Do facto de que cada vez se vendem mais bilhetes de viagem em relação aos passes mensais.
Mesmo ignorando que este tipo de ciência levar-nos-ia a concluir que os portugueses não gostam de lagosta nem de bife da vazia, importa ter presente um outro facto: a utilização eventual do transporte cresceu por efeito do crescimento do turismo e pelo facto de uma parte da população ter abandonado o uso do passe mensal devido ao brutal aumento de custos sofrido (mais de 100% em muitos casos), e ter sido obrigada a utilizar os transportes públicos apenas para as emergências.
Se com um chip nos fizessem regressar ao tempo em que não havia passes mensais intermodais, estaríamos a andar 40 anos para trás. E dando prioridade ao utilizador ocasional em vez de promover a utilização regular da rede. E a carregar nos custos suportados pelos trabalhadores que ainda têm emprego.
Um dia teremos um governo moderno. Nesse dia, em vez de modernices teremos medidas novas de um tempo novo. Como a que o PCP propõe para a A.M. Lisboa: uma bilhética simplificada e um passe intermodal alargado a todos os operadores, todas as carreiras e toda a AML, oferecendo cada vez mais mobilidade por um custo cada vez menor.