SIRP: é tempo da sua refundação democrática

Carlos Gonçalves (Membro da Comissão Política do PCP)

Os de­sen­vol­vi­mentos re­centes com­provam a aná­lise do Par­tido: o Sis­tema de In­for­ma­ções da Re­pú­blica (SIRP) pa­dece de uma do­ença cró­nica, em agra­va­mento. É um quadro clí­nico per­verso e di­fícil, nas­cido de um con­flito con­gé­nito com o re­gime de­mo­crá­tico cons­ti­tu­ci­onal e com surtos con­ta­gi­osos na vida do País. O SIRP é hoje de­mo­cra­ti­ca­mente ir­re­for­mável.

 

O SIRP cons­titui um risco para o re­gime de­mo­crá­tico

A se­mana pas­sada, houve uma pe­quena vi­tória, que im­porta re­ferir. Foi pos­sível con­frontar em au­dição po­tes­ta­tiva, im­posta pelo PCP na AR, o Se­cre­tário-geral do SIRP, Júlio Pe­reira (JP). Du­rante anos PS, PSD e CDS im­pe­diram que al­guém res­pon­desse pelos ser­viços, com a ale­gação de que estes de­pendem do Pri­meiro-mi­nistro que, como Passos Co­elho, nunca pres­tará contas. Mas a ver­dade é que JP é Se­cre­tário de Es­tado, in­te­grando desde 2005 su­ces­sivos go­vernos do PS, PSD/​CDS e de novo do PS(!), e nessa qua­li­dade está obri­gado a res­ponder pe­rante a AR.

A au­dição de JP foi um rombo na «imu­ni­dade», efec­tiva mas ilí­cita, do SIRP, cons­truida por PS, PSD e CDS e que tem blin­dado os ser­viços ao con­trolo de­mo­crá­tico. E foi ver­be­rada pelo porta-voz do PS (!) Jorge Lacão, para quem qual­quer pres­tação de contas do SIRP cons­titui um «pe­rigo para a se­gu­rança».

O «es­pião russo»

A causa ime­diata da au­dição foi a prisão em Roma, em Maio, do agente do SIS Car­va­lhão Gil, quando ale­ga­da­mente vendia in­for­mação con­fi­den­cial da NATO ao agente russo do SVR, Sergey Pozdnyakov. Uma ope­ração nas­cida no SIRP, com co­ne­xões NATO, e con­cre­ti­zada pela in­ves­ti­gação cri­minal por­tu­guesa e ita­liana.

Gil foi tra­zido para Por­tugal e co­lo­cado em prisão pre­ven­tiva, mas está agora em prisão do­mi­ci­liária com pul­seira elec­tró­nica; foi so­li­ci­tada a Itália, e re­cu­sada por este país, a ex­tra­dição de Pozdnyakov. O caso pa­rece a ca­minho da ir­re­le­vância penal.

A co­mu­ni­cação so­cial do­mi­nante di­vulgou o per­so­nagem Gil, se­gundo versão do SIRP, com muitos por­me­nores, in­cluindo «avisos da Mossad» (!), em con­traste com as oca­siões em que es­conde tudo o que pode, como no trân­sito por ter­ri­tório na­ci­onal dos se­ques­trados da CIA, a ca­minho das tor­turas de Guan­tá­namo, ou nas ale­ga­ções de Silva Car­valho sobre os pro­ce­di­mentos ope­ra­tivos ile­gais dos ser­viços.

Dois meses após a prisão e duas se­manas após a ci­meira da NATO em Var­sóvia, o «es­pião russo» tornou-se uma «prova» para «jus­ti­ficar» um novo de­grau no cerco da NATO à Fe­de­ração Russa e na cor­rida aos ar­ma­mentos.

Gil tem perfil de «agente duplo» au­to­ri­zado, os «se­gredos ven­didos« por dez mil euros (!) são uma treta e o seu «crime» só apro­veitou à NATO, mas o Se­cre­tário-geral do SIRP afastou qual­quer res­pon­sa­bi­li­dade dos ser­viços – tudo se re­su­miria a mais um caso in­di­vi­dual –, e pro­curou es­ca­mo­tear a perda de con­fi­a­bi­li­dade de­mo­crá­tica e de cre­di­bi­li­dade ope­ra­ci­onal dos Ser­viços de In­for­ma­ções.

Fora da lei e es­tranho à Cons­ti­tuição

Con­fron­tado pelo PCP, JP re­petiu que não existe no SIRP qual­quer acesso a me­ta­dados, ou ou­tras ile­ga­li­dades, apesar de, em jul­ga­mento, o ex-di­rector do SIEDN, Silva Car­valho, ter dito que 90 por cento da ac­ti­vi­dade do SIRP é ilegal. JP disse que nada há de ilegal no «Ma­nual de pro­ce­di­mentos do SIS», que foi fi­nal­mente en­tregue em Tri­bunal, com o «Se­gredo de Es­tado» par­ci­al­mente le­van­tado e com re­fe­rência ex­plí­cita a ile­ga­li­dades.

JP afirmou que o Con­selho de Fis­ca­li­zação «fun­ciona bem», em­bora não passe de uma «ane­dota trá­gica», que finge que nada sabe e não an­te­cipa um único pro­blema, nas ile­ga­li­dades e chan­ta­gens, na guerra in­tes­tina de PS, PSD, ma­ço­na­rias e obe­di­ên­cias.

Sobre o acesso a me­ta­dados, JP de­fendeu ser ne­ces­sária aos ser­viços – o que não é ver­dade – e la­mentou im­pli­ci­ta­mente que a lei do PS, PSD e CDS, com esse ob­jecto, tenha sido con­si­de­rada in­cons­ti­tu­ci­onal.

Ficou pro­vado na au­dição que per­siste no SIRP a «ali­ança es­tra­té­gica» PS/​PSD/​CDS, de quase 40 anos, que o pariu, e que sempre apoiou a sua des­con­for­mi­dade ao re­gime e a sua ile­ga­li­dade, e onde, como disse, em 2005, Rui Pe­reira, ex-di­rector do SIS e então Mi­nistro de Ad­mi­nis­tração In­terna do PS, a única norma é o «Se­gredo de Es­tado», que cobre es­cutas e todas as ile­ga­li­dades.

Hoje, Lacão e o mi­nistro Santos Silva in­sistem no acesso dos ser­viços a me­ta­dados e o PSD está pronto para «re­solver». Têm no ho­ri­zonte a fusão in­cons­ti­tu­ci­onal de mis­sões de de­fesa e se­gu­rança para criar a fi­gura do «ini­migo in­terno».

O SIRP vive em es­tado de ne­gação, fo­ra­gido da jus­tiça e do con­trolo de­mo­crá­tico, fora da Lei e es­tranho à Cons­ti­tuição, é um ab­cesso na de­mo­cracia de Abril. O SIRP atingiu um pa­tamar em que é de­mo­cra­ti­ca­mente ir­re­for­mável e cons­titui um risco efec­tivo para o re­gime de­mo­crá­tico.

É tempo dos de­mo­cratas e pa­tri­otas tra­varem com­bate para que se faça jus­tiça no SIRP, pela sua fis­ca­li­zação efec­tiva e pela ga­rantia da sua con­for­mi­dade à Cons­ti­tuição de Abril.

É tempo da sua re­fun­dação de­mo­crá­tica.




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