O mito do processo de paz
O governo israelita rejeitou o apelo do Quarteto para o Médio Oriente, divulgado dia 1, de pôr fim à construção de colonatos nos territórios palestinianos ocupados.
Quarteto faz dez recomendações para relançar o processo de paz
O primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, considera ser um «mito» a ideia de que a construção de colonatos sabota a paz. Em resposta ao relatório do Quarteto com dez recomendações para relançar o processo de paz entre Israel e a Palestina, Netanyahu emitiu um comunicado em que afirma que o documento «perpetua o mito de que as construções israelitas na Cisjordânia são um obstáculo à paz». Não é verdade, alega, pois «quando Israel congelou a colonização, não obteve a paz».
A declaração, um ataque da Força Aérea de Israel a quatro objectivos na Faixa de Gaza, no dia 2, e o anúncio de novos colonatos parecem ser a resposta do executivo sionista ao documento do Quarteto – formado por Estados Unidos, União Europeia, ONU e Rússia – que começa por instar as duas partes a «trabalhar para baixar a tensão, dando provas de contenção e evitando provocações, tanto por actos como no discurso».
De acordo com o texto, citado pela Lusa, israelitas e palestinianos «devem adoptar todas as medidas necessárias para impedir a violência e proteger as vidas e os bens de todos os civis, recorrendo a uma coordenação contínua em matéria de segurança e a um reforço da capacidade, dos poderes e da autoridade das forças de segurança palestinianas». O terceiro conselho do Quarteto é que a «Autoridade Palestiniana deve agir firmemente e tomar todas as medidas possíveis para pôr fim às incitações à violência e reforçar as iniciativas de luta contra o terrorismo, incluindo condenar claramente todos os actos terroristas», enquanto Israel – e esse é o quarto conselho – deve «pôr termo à sua política de construção e desenvolvimento de colonatos, de afectação de terrenos só para uso israelita e de negação do desenvolvimento palestiniano».
Provocação israelita
A posição das autoridades de Israel não podia ser mais dissonante, já que planeiam construir «várias centenas de casas nos colonatos da Cisjordânia e em Jerusalém Oriental», como denunciou esta segunda-feira, 4, o Ministério dos Negócios Estrangeiros francês, numa declaração em que considera que «nenhum desenvolvimento no terreno pode justificar este tipo de medidas», o qual ameaça directamente a solução dos dois estados, a única que pode solucionar o conflicto.
A declaração surge após uma recente reunião ministerial internacional realizada em Paris para tentar relançar o processo de paz israelo-palestiniano, em que participaram representantes de 30 países e organizações internacionais, entre as quais o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon.
Para o ministro francês Jean-Marc Ayrault, a possibilidade de dois estados, um israelita e outro palestiniano, está «em grave perigo» e a situação aproxima-se de um «ponto de não retorno».
A provocação de Telavive ao anunciar novos colonatos – fala-se de mais de meio milhar – põe em evidência o desfasamento das recomendações do Quarteto com a realidade.
Sem fazer qualquer distinção entre ocupante e ocupado, agressor e agredido, o documento, entre outros aspectos, recomenda a Israel a transferência de poderes e responsabilidades para a Autoridade Palestiniana, conforme previsto em acordos anteriores que nunca foram cumpridos; o levantamento das restrições à liberdade de movimento de e para a Faixa de Gaza; a reunificação da Faixa de Gaza e da Cisjordânia, e insta as duas partes a «encorajar um clima de tolerância, desenvolvendo interações e a cooperação em diversas áreas – económica, profissional, educativa, cultural – que consolidem os alicerces para a paz e contra o extremismo».
Parafraseando Benjamin Netanyahu, dir-se-ia que processo de paz não passa de um mito.