Comentário

O direito soberano de decidir

João Pimenta Lopes

O povo bri­tâ­nico é hoje cha­mado a par­ti­cipar num re­fe­rendo sobre o vín­culo do Reino Unido à União Eu­ro­peia.

In­de­pen­den­te­mente do re­sul­tado final, que pro­va­vel­mente só será co­nhe­cido pela ma­dru­gada, é útil re­cu­perar e reter al­gumas ideias.

O re­fe­rendo foi uma pro­messa de David Ca­meron nas elei­ções de 2015. Mas não como res­posta a um clamor po­pular, antes como uma dupla jo­gada po­lí­tica. Por um lado re­a­gindo a ten­sões dentro do Par­tido Con­ser­vador e como res­posta ao apa­re­ci­mento e as­censo do UKIP. Por outro, como um trunfo ne­go­cial ante a UE, vi­sando sal­va­guardar os in­te­resses do ca­pital fi­nan­ceiro bri­tâ­nico, e bem assim aos in­te­resses eco­nó­micos dos EUA, no quadro das ri­va­li­dades com os in­te­resses de ou­tras grandes po­tên­cias eu­ro­peias.

Ce­dendo aos in­te­resses bri­tâ­nicos e a todas as suas exi­gên­cias, o Con­selho Eu­ropeu de Fe­ve­reiro acedeu ao alar­ga­mento dos re­gimes de ex­cepção já apli­cados ao Reino Unido. A ex­clusão do sis­tema fi­nan­ceiro bri­tâ­nico da União Ban­cária é um dos exem­plos. Mas mais grave, a pros­se­cução da linha de ata­ques aos di­reitos dos tra­ba­lha­dores e uma pe­ri­gosa de­riva xe­nó­foba e ra­cista, con­subs­tan­ciada na dis­cri­mi­nação de tra­ba­lha­dores con­so­ante a sua na­ci­o­na­li­dade e con­dição so­cial, dei­tando por terra o sa­cros­santo prin­cípio da livre cir­cu­lação de pes­soas.

Um pro­cesso ne­go­cial que de­monstra que o pro­cesso de in­te­gração ca­pi­ta­lista se de­sen­volve numa ló­gica de dois pesos e duas me­didas, com países de pri­meira e de se­gunda. Assim se com­pre­ende que se faça tábua rasa dos tra­tados quando se trata de de­fender os in­te­resses do grande ca­pital e das grandes po­tên­cias. Já quando fa­lamos de di­reitos so­ciais, in­te­resses dos tra­ba­lha­dores e povos ou de países como Por­tugal esses ins­tru­mentos são ab­so­lu­ta­mente in­fle­xí­veis e mul­ti­plicam-se as pres­sões.

Este re­fe­rendo é uma ex­pressão evi­dente da pro­funda crise na e da União Eu­ro­peia, e do agra­va­mento das con­tra­di­ções e ten­sões entre po­tên­cias e oli­gar­quias na­ci­o­na­listas no seio da UE.

Quais­quer que sejam os re­sul­tados te­remos de estar atentos ao dia se­guinte. Se se man­tiver a ac­tual si­tu­ação, es­ta­remos con­fron­tados com a in­te­gração na le­gis­lação da UE dos acordos, ou seja com a ins­ti­tu­ci­o­na­li­zação de re­gressão so­cial e dis­cri­mi­nação. Si­mul­ta­ne­a­mente existe o risco de, em­ba­lado pela «vi­tória», o di­rec­tório de po­tên­cias ace­lerar o ritmo de apro­fun­da­mento do pro­cesso de con­cen­tração de poder na UE. O seu ob­jec­tivo será o do agra­va­mento das po­lí­ticas ne­o­li­be­rais, o ataque aos di­reitos dos tra­ba­lha­dores, a li­be­ra­li­zação dos mer­cados, as re­formas es­tru­tu­rais, a des­truição das fun­ções so­ciais do es­tado, mais perda de so­be­rania, mi­li­ta­ri­zação e se­cu­ri­ta­ri­zação da UE.

Se vencer a saída – um ce­nário talvez menos pro­vável, mas não im­pos­sível – o povo bri­tâ­nico será cer­ta­mente afron­tado com ma­no­bras de chan­tagem, com pres­sões e mesmo pro­vo­ca­ções que pro­curem con­tornar ou mesmo per­verter a von­tade do povo.

Esse ce­nário é bem co­nhe­cido na his­tória da UE e da seu sis­te­má­tico des­res­peito pela de­mo­cracia. Re­lem­bremos o tra­tado de Ma­as­tricht e o Não di­na­marquês, a que se se­guiu um Sim fruto da ga­rantia de um con­junto de cláu­sulas de ex­cep­ções. Ou o parco Sim francês, onde não obs­tante uma muito ténue margem (51,05% pelo Sim), não se re­petiu o re­fe­rendo. Re­cor­demos ainda a «Cons­ti­tuição Eu­ro­peia» que caiu por terra com o Não nos re­fe­rendos de França e Ho­landa, sendo ime­di­a­ta­mente des­con­vo­cados os re­fe­rendos na Re­pú­blica Checa, na Di­na­marca, na Ir­landa, na Po­lónia e... em Por­tugal (onde PS/​PSD/​CDS sempre blo­que­aram a re­a­li­zação de qual­quer re­fe­rendo sobre ques­tões eu­ro­peias)! Re­gres­semos ao Tra­tado de Lisboa – a versão re­cau­chu­tada da der­ro­tada «Cons­ti­tuição eu­ro­peia», então im­pe­dido de ser su­jeito a re­fe­rendos nos es­tados mem­bros, ex­cepção feita à Re­pú­blica da Ir­landa onde, por dis­po­sição cons­ti­tu­ci­onal, se re­a­lizou um re­fe­rendo em que o Não venceu, apenas para ser re­pe­tido num pro­cesso de chan­ta­gens, in­ge­rên­cias e pres­sões que le­varia, à força, à vi­tória do Sim.

Seja qual for o des­fecho deste re­fe­rendo, há dois as­pectos que im­porta su­bli­nhar. O pri­meiro é que após este pro­cesso cai o mito da ir­re­ver­si­bi­li­dade do pro­cesso de in­te­gração, do ca­rácter «in­to­cável» dos tra­tados e da im­pos­si­bi­li­dade das ex­cep­ções e der­ro­ga­ções aos tra­tados em função das es­pe­ci­fi­ci­dades na­ci­o­nais. O se­gundo é que às te­o­rias do medo e dos ca­tas­tro­fismos que se de­sen­vol­verão res­pon­de­remos com essa ideia, tão sim­ples como forte, de que a von­tade dos povos, o seu di­reito so­be­rano de de­cidir e a sua luta con­se­guem romper qual­quer beco sem saída para onde os queiram em­purrar. São os povos que fazem a His­tória!



Mais artigos de: Europa

Luta segue o seu caminho

A frente sin­dical que se opõe à re­forma la­boral em França or­ga­niza hoje uma nova ma­ni­fes­tação em Paris, en­fren­tando as ame­aças e «re­co­men­da­ções» das au­to­ri­dades.

Alerta britânico

O re­fe­rendo que hoje, quinta-feira, 23, se re­a­liza no Reino Unido co­loca na ordem do dia a cres­cente im­po­pu­la­ri­dade da União Eu­ro­peia em todos os es­tados-mem­bros.

5 Estrelas conquista<br>Roma e Turim

Virginia Raggi, uma advogada de 37 anos, será a primeira mulher na história de Roma a liderar o município. A candidata do Movimento 5 Estrelas, que já tinha sido a mais votada na primeira volta do sufrágio, impôs-se a Roberto Giachetti, candidato do Partido Democrático...

Agricultores visitam PE

Um grupo de agricultores dos distritos de Viana do Castelo, Braga, Vila Real, Douro e Setúbal visitou as instalações do Parlamento Europeu em Bruxelas, a convite do deputado do PCP, João Ferreira. A deslocação, realizada entre os dias 13 e 17 do...