Luta segue o seu caminho
A frente sindical que se opõe à reforma laboral em França organiza hoje uma nova manifestação em Paris, enfrentando as ameaças e «recomendações» das autoridades.
Sindicatos resistem às pressões do governo
A polícia de Paris propôs, na segunda-feira, 20, à CGT, FO, FSU, Solidaires, Unef, Fidl e UNL que, em vez de uma manifestação, organizassem uma «concentração estática», para evitar violências e garantir a segurança.
No mesmo dia, revelou a CGT, o ministro do Interior, Bernard Cazeneuve, numa carta dirigida ao secretário-geral da central sindical francesa, considerou que «no contexto de tensão e de confrontos recorrentes», a manifestação marcada para hoje, quinta-feira, 23, «não parece possível».
O governante pediu assim aos sindicatos que «considerassem» a proposta da prefeitura de polícia de realizarem uma concentração na Praça da Nação.
Estas pressões surgem na sequência de declarações do primeiro-ministro, Manuel Valls, que ameaçou proibir novas manifestações da frente sindical, invocando os desacatos provocados por grupos à margem da grande manifestação de dia 14.
Todavia a frente sindical não se deixou impressionar, tendo comunicado de imediato às autoridades policiais a intenção de realizar a manifestação entre a Bastilha e a Praça da Nação, tal como estava previsto.
Diálogo mitigado
Para tentar quebrar o maior movimento social de protesto das últimas décadas em França, o governo de Hollande-Valls tanto apela ao diálogo como recorre à ameaça, ao bom estilo da política do «pau e da cenoura».
Após três meses de greves e manifestações que continuam a abalar o país, o líder da CGT, Philippe Martinez, foi recebido, dia 17, pela ministra do Trabalho, Myriam El Khomri, com a qual pôde finalmente discutir durante hora e meia o retrógrado projecto de lei do trabalho.
Martinez levou consigo um documento com propostas de alteração dos pontos mais gravosos da nova legislação. Não houve consenso, mas o dirigente sindical afirmou que houve «uma troca de opiniões construtiva», mantendo-se embora divergência sobre questões de fundo.
No mesmo sentido se pronunciou a ministra, realçando a atitude «construtiva e argumentada» da CGT, designadamente sobre a questão-chave do primado dos acordos de empresa sobre os acordos sectoriais que o governo quer impor.
Segundo declarou Fabrice Angéi, secretário confederal da CGT que também esteve no encontro, a central sindical continua a exigir a suspensão da lei, no entanto, tal não impede de apresentar propostas que garantam «novos direitos».
Nesse sentido, a CGT, ao mesmo tempo que recusa a «descentralização» da negociação para o nível de cada empresa, está disposta a negociar os termos e as áreas em que os acordos de empresa podem derrogar as condições estabelecidas nos acordos sectoriais.
Aliás, isso já hoje é possível em matéria de organização do tempo de trabalho. Todavia, sublinha a central, tudo tem de estar regulamentado e tais acordos devem ser validados ao nível sectorial para evitar o dumping social e que os trabalhadores de empresas diferentes sejam postos em concorrência.