As águas
As águas do Sena subiram mais de seis metros e inundaram Paris, deixando, no Louvre, a Vénus de Milo rodeada de caixotes para não se afogar e, nos arredores da Cidade Luz, os ricos com água pela barba e os pobres escanhoados até ao osso, com tal enchente de tão pacato rio. Fala-se já em 500 milhões de euros de prejuízos, o que dá a dimensão da catástrofe.
Acontece que Paris já se encontrava em polvorosa, antes de o Sena se armar em Amazonas gaulês. A capital francesa (e todo o país, em geral) está em convulsão há mais de dois meses, numa luta em crescendo contra a decisão protagonizada pessoalmente pelo presidente François Hollande, que pretende impor a desregulamentação laboral a toda a brida (além de desabridamente) com uma nova Lei do Trabalho, que o governo já aprovou por decreto, tal é a pressa.
O envolvimento directo de François Hollande na desregulamentação laboral confirma a grande ilusão espalhada pela sua candidatura à Presidência da República, pretensamente redentora da política reaccionária e aventureira de Sarkozy.
Ao assumir-se, lui-même, um irredutível impositor da nova legislação laboral, evidencia definitivamente de que lado está da barricada (já que falamos do país que realizou a Revolução Francesa), o que não surpreenderá, dado o trajecto não apenas tortuoso, mas sobretudo reaccionário do seu mandato em relação ao país, ao povo e, sobretudo, às classes trabalhadoras – o que envolve toda a força motriz que faz mexer a França.
Acresce que a política externa de Hollande o manteve totalmente alinhado com as teses germânicas, quer do «controle do défice» – que, internamente, procura agora implementar com esta nova legislação do trabalho –, quer da posição imperial (sempre em conluio com os EUA) face à situação política internacional.
Assentou essa política externa de Hollande em dois marcos significativos.
Um, secundando a perigosa aventura germânica de apoio a um golpe de Estado e a um regime criptofascista na Ucrânia.
Outro, apoiando activamente (o que inclui participação militar directa) a pretensa «Primavera árabe» na Líbia, que faria tombar Kadhafi às mãos de bandos de salteadores e destruiria o país, fazendo-o pasto do ISIS. Tudo para garantir «um terço do petróleo da Líbia para a França», num imperialismo serôdio e vergonhoso.
O Sena já começa a recuar para o leito habitual, mas o primeiro-ministro francês, Manuel Valls, não perdeu a boleia e apelou aos franceses, em greve geral contra o novo código do trabalho, para que atendam à «situação de calamidade em Paris».
A calamidade em Paris já está a passar – o que não passará é a brutal regressão nos direitos de quem trabalha, em França, se as intenções de Hollande se concretizarem.