Simplesmente…

Jorge Cordeiro

Admita-se que dificilmente se encontraria nome mais sugestivo para o novo espaço de comentário desencantado pela TVI que «simplesmente Marisa». Trocados o Maria por Marisa, vencidas que sejam no tempo mais de quatro décadas, substituída que seja a então Rádio Renascença pelo agora referido canal de televisão, a designação escolhida transporta-nos para os terrenos do folhetim radiofónico «simplesmente Maria» que fazia as delícias de um público pouco exigente que se desfazia em lágrimas com os amores e e desamores de «Maria» e «Alberto». De regresso à actualidade cá temos e a prometer umas quantas outras histórias, de novo um Alberto, o José de Carvalho e uma nova Maria, mas com «esse».

Alegar-se-á em defesa da escolha que, para lá da discutível qualidade do produto vendido em horário nobre, nem tudo é mimético: a substituição do então popular «Tide» pelo grupo Santander/TVI enquanto entidade patrocinadora é relevante, ao que se deve acrescentar que não estará prevista (ao que se sabe) uma revista cor de rosa para acompanhar as narrativas semanais, nem porventura caderneta de cromos. Valha-nos isso.

Quanto ao resto, a opção anunciada em dia de mentiras fala por si. Cada um tem direito às escolhas que faz, mais que não seja porque quem detém o capital manda e este não descura os seus interesses de classe. Ainda mais quando elas casam com os critérios editoriais dominantes. Ter alguém com a coerência de quem é capaz de estar num dia em Atenas festejando a pré-anunciada vitória de Tsipras para meses seguintes parecer nem saber onde fica a Grécia ou de negar com a mesma convicção, como se estivesse a respeitar a verdade, a posição que assumiu quanto à invasão da Líbia, bate na perfeição com os padrões de rigor da entidade contratante.

Aos que se apressarão a ver inveja no que aqui se pode ler, sempre se dirá, com inteira verdade, que tendo por definição esse pecado mortal «sentimento de aspirar a ter o que o outro tem» a questão fica desmentida por si, pela simples razão que sendo o PCP o que é, estranho seria que por parte do grande capital tão generosa esmola lhe fosse estendida. Ainda que sabendo que aí teremos para aturar a horda de comentadores e analistas que semeando a manipulação e discriminação se juntarão para zurzir na falta de dotes de comunicação do PCP.




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