Lá para a Lapa
Quarenta e dois anos depois da Revolução de Abril, o PPD-PSD realizou o seu 36.º Congresso, o que dá a invejável média de 1,16 anos entre cada um deles, sem dúvida o mais avantajado ritmo congressual do País e uma demonstração de que ser profuso não implica, necessariamente, ser profícuo.
Anotando os folclores costumeiros com um exemplo curricular – o da exibição do busto de Sá Carneiro no palco, transportado em andor de congresso em congresso e posto entre bandeiras no lado esquerdo do proscénio –, o «congresso 36» (como dizem na televisão, onde os jornalistas parece não conhecerem a numeração ordinal) exibiu duas novidades, ambas provenientes da actual fonte do poder, o presidente Pedro Passos Coelho.
A primeira novidade consistiu no reconhecimento da legitimidade do Governo do PS/Costa por parte de Passos Coelho, o que deve ter resultado de um esforço hercúleo, com a demora de seis meses a ver a luz do dia.
Mas Coelho mudou a agulha do discurso de primeiro-ministro amuado e reconheceu, finalmente, «a legitimidade» do Governo actual, embora para sublinhar a mesma ânsia em se alcandorar de novo na administração «do pote», desmesura denunciada na pretensa ironia de afirmar que não esperava eleições legislativas «nos próximos anos» (o homem nunca mais aprende que fazer ironia é caminho certo para se denunciar, em desastre).
A segunda novidade trazida por Passos Coelho deixou parte dos congressistas de boca aberta: a escolha de Maria Luís Albuquerque para a vice-presidência do partido.
Não bastava a senhora ter posto o PSD nas bocas do mundo político ao aceitar, mal saiu do poder, um ordenado milionário de uma empresa inglesa negociadora de activos tóxicos, com quem o seu Ministério se havia relacionado e a quem se dispôs a prestar «uma assessoria».
Não bastavam, sequer, os previsíveis sarilhos que se irão acumular contra o PSD, conforme surgirem à luz do dia os «buracos» e as más contas do consulado de Maria Luís.
Passos Coelho impôs Maria Luís Albuquerque – como já tinha imposto Miguel Relvas, o «Facilitador» – e mostrou quem manda.
Tal como «mandou» num congresso que foi lançado sob a sua consigna Social-democracia Sempre e realizado com o lema Compromisso Reformista, faltando apurar se o «Compromisso» «reformou», afinal, a Social-democracia.
O resto – que foi quase tudo – consistiu em três dias de monótonas elocuções amplificadas perante plateias esburacadas ou mesmo desertas, sem nada nem ninguém a conseguir disfarçar ou esconder o desalento amodorrado do congresso.
Passos Coelho ainda garantiu que o PSD era «um partido paciente». Com a média de congressos de um ano e picos, vê-se.
Daqui a um ano, o ex-chanceler verá que a paciência se esgotou, lá para a Lapa.