Noventa e cinco

Correia da Fonseca

O Partido Comunista Português fez anos e não poucos, noventa e cinco, e não se pode dizer que a televisão portuguesa não tenha dado por isso: com maior ou menor atenção, os diversos canais mantidos no ar pelas operadoras portuguesas de TV registaram a efeméride, referiram pelo menos algumas das iniciativas com que o aniversário foi formalmente festejado e até a Jerónimo de Sousa foi concedido algum tempo de antena no chamado horário nobre. Sabendo-se, como muito bem se sabe, que o PCP e a sua sobrevivência para muitos arreliadora não são tema atraente para quem põe e dispõe nas agendas telenoticiosas, parece não haver razão de queixa quanto à cobertura televisiva do acontecimento. Sucede, porém, em matéria de informação adequada e isenta como em qualquer outra, que uma coisa é fazer o que é justo e outra coisa é cumprir os serviços mínimos tacitamente obrigatórios dado o relevo de um facto. Perante a presença deste aniversário na generalidade da televisão portuguesa, isto é, do conjunto dos diversos canais à disposição dos milhões de cidadãos telespectadores, bem se pode dizer que a cobertura do acontecimento foi não apenas escassa mas também que foi omissa em pontos fundamentais. Porque foi lembrado, é certo, que se completaram noventa e cinco anos da existência de um partido político, mas foi generalizadamente omitido que esses noventa e cinco anos foram, dia após dia, de luta e de projecto generoso, de sofrimento e de coragem, de dificuldades terríveis e de inquebrantável confiança na justeza da luta empreendida. E de fraternidade e lealdade, sentimentos que parece terem ficado fora de moda no interior de uma sociedade em avançado estado de putrefacção, mas não, nunca, no interior do partido aniversariante, por imposição dos elementares princípios da condição partidária.

Palavras, luta, partidos

Dizendo-o sumariamente, poder-se-á apontar que ao registo pela televisão dos noventa e cinco anos do Partido Comunista Português faltou a identificação, ainda que sumária, dos factos que preencheram e caracterizaram todos esses anos de existência. Não se exigiria uma contabilização de quantos militantes comunistas (isto é, de quantos combatentes por uma sociedade enfim justa) foram torturados, de quantos outros foram assassinados directa ou indirectamente, de quantas circunstanciais causas de percurso ilustraram concretamente essa existência de quase um século. Era eticamente obrigatório, porém, que a tudo isso e a muito mais fosse feita pelo menos uma alusão breve. Uma argumentação farisaica poderia alegar que a evocação desses factos constituiria um tratamento favorável ao PCP em confronto com os aniversários de outros partidos, assim se perdendo a equidistância da TV relativamente a todos eles. Bem se sabe, é claro, que um tal argumento seria apenas hipócrita, mas ainda assim convém sublinhar, isso sim, que essa diferença de histórias é que demonstra a diferença verdadeiramente medular entre o PCP e os outros partidos hoje a operar livremente no nosso País, em larga medida graças às décadas heroicas de resistência antifascista que os comunistas protagonizaram. E entenda-se claramente que a eventual reivindicação de que a TV portuguesa completasse a mera notícia de um aniversário com a prestação de informações que a esse aniversário dessem inteiro sentido nunca seria excessiva. Porque, com perdão de eventuais susceptibilidades, o facto é que o PCP não é um partido como qualquer outro, podendo exibir noventa e cinco anos que o provam. Um antigo ensaio do brasileiro Álvaro Lins, crítico literário e embaixador, católico e antifascista, terminava citando uma tragédia de Shakespeare e sublinhando que «em qualquer cidade, em qualquer aldeia, em qualquer casa onde o homem livre diz “não” aos Césares, aí está presente o espírito de Brutus e as palavras da sua bandeira de luta: Paz, Independência e Liberdade.» Em verdade, estas poderiam ser as palavras definidoras dos objectivos últimos do PCP. E da sua legítima razão de orgulho.




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