Voto pela mudança
Os conservadores e trabalhistas que governaram a Irlanda nos últimos quatro anos sofreram uma pesada derrota que os arreda do poder.
Os dois principais partidos perdem a hegemonia
As eleições legislativas na Irlanda, realizadas dia 26, criaram uma situação política nova no país, em que, pela primeira vez, nem os democratas cristãos do Fine Gael (FG), nem os conservadores do Fianna Fáil (FF) têm à partida condições para formar governo.
O Fine Gael de Enda Kenny, que liderou o governo demissionário com os trabalhistas, reconheceu que os maus resultados do partido e o colapso dos seus parceiros trabalhistas tornaram impossível reeditar a coligação.
Com efeito, os resultados oficiais conhecidos no início da semana (ainda não definitivos) indicam que o FG não foi além de 25,5 por cento e 49 deputados, num hemiciclo com 158 lugares. Em relação a 2011, o partido mais votado perdeu 10,6 pontos percentuais e 27 deputados.
A queda dos trabalhistas foi ainda mais acentuada, passando de 19,4 por cento e 37 deputados, em 2011, para 6,6 por cento e apenas seis deputados agora.
A deslocação do eleitorado não beneficiou particularmente os conservadores do Fianna Fáil, cujo resultado é similar ao do FG, seu rival histórico.
Embora tenham recuperado da hecatombe sofrida em 2011, o FF subiu de 17,4 por cento e 20 deputados para 24,3 por cento e 43 deputados.
Sinn Féin é terceira força
Com a queda dos trabalhistas, o Sinn Féin de Gerrry Adams reforçou o seu eleitorado, subindo de 9,9 por cento e 14 deputados, em 2011, para 13,8 por cento e 22 deputados, consagrando-se como a terceira força política do país.
Significativo é também o resultado da Aliança Anti-Austeridade (3,9% e cinco deputados), dos recém-formados Sociais-Democratas (3,0 % e três deputados), ou ainda dos Verdes que subiram de 1,8 por cento, em 2011, para 2,7 por cento, conseguindo eleger dois deputados.
Refira-se ainda o resultado da Aliança Independente, formação criada em 2015, que obteve 4,2 por cento e elegeu quatro deputados, bem como das várias listas de independentes que somaram 13 por cento dos votos e 16 deputados.
O futuro parlamento será sem dúvida o mais heterogéneo das últimas décadas e ninguém arrisca cenários sobre a formação do próximo governo.
Gerry Adams já reiterou que o Sinn Féin não viabilizará um executivo encabeçado por um dos dois principais partidos irlandeses. «Não vamos atraiçoar o eleitorado, apoiando um governo da velha direita retrógrada e negativa, independentemente dos partidos que o integrem», declarou Adams.
O dirigente do Sinn Féin notou ainda que «os grandes partidos conservadores que governaram o país durante muito tempo já nem sequer conseguem congregar juntos 50 por cento dos votos. As formações de esquerda, progressistas, os independentes e o Sinn Féin ficaram com o resto».
Para garantir uma maioria parlamentar, os dois maiores partidos, FG e FF, teriam de se coligar, hipótese que ambos recusaram durante a campanha eleitoral. A verificar-se um impasse, a solução terá de passar pela convocação de novas eleições dentro de seis meses.