Falsos profetas
As últimas semanas foram marcadas pelo reaparecimento de velhas proclamações do inevitável declínio da influência do PCP na sociedade portuguesa e da sua morte a curto prazo. Com uma ou outra variante, com ou um outro novo profeta, os argumentos e as caras são as mesmas que nos últimos 25 anos têm vindo a confundir desejo por realidade no que ao PCP diz respeito. Continuamos a ler Vasco Pulido Valente (três vezes por semana no Público) e Miguel Sousa Tavares (a cada edição do Expresso) a repetir de tempos a tempos a mesma lenga-lenga que por várias vezes a realidade já os fez engolir: a «sova eleitoral» que levará pela certa à «agonia do comunismo».
São já tantas e tão parecidas as profecias destes (e de outros) iluminados que é razão para nos perguntarmos por que continuam Belmiro e Balsemão a pagar páginas a quem tanto se engana. Uma coisa é certa, o erro é tanto e tão flagrante que a sua repetição a cada oportunidade interessará a alguém.
Nos últimos dias as atenções mediáticas foram-se deslocando para o Governo e para a proposta de Orçamento do Estado que apresentou na Assembleia da República no dia 5. Após longos dias em que a imprensa nacional e os comentadores residentes (com PSD e CDS a ajudar) foram agitando o medo da chantagem das instituições europeias e dos «mercados» ao governo português, o OE estava entregue onde tem que ser discutido, pelos deputados na Assembleia da República e não pelas agências de rating, pelo FMI ou por Bruxelas. O PCP foi o primeiro partido com representação parlamentar a reagir, realçando que a proposta continha «medidas, ainda que com alcance limitado, que podem dar resposta a problemas imediatos e a expectativas dos trabalhadores e do povo português». Nas iniciativas em que o Secretário-geral do PCP participou nos dias seguintes voltou a realçar a consideração de medidas positivas na proposta de Orçamento, apontando também as suas insuficiências e a disponibilidade do PCP para contribuir com propostas na discussão que se segue.
Mas, uma vez mais, os media deram a volta ao texto e transformaram a análise do PCP e a sua disponibilidade para contribuir para uma solução numa pequena expressão: «limitados avanços», baralhando pelo caminho a discussão do Orçamento com o processo de privatização da TAP. Não podendo ocultar o contributo central que o PCP deu para o caminho aberto de recuperação de direitos e rendimentos, reduzem e deturpam a posição do PCP, procuram divergências e conflitos onde o que existe é uma posição aberta e frontal. Os avanços são, de facto, limitados, mas é pela intervenção do PCP que muitas matérias constam da proposta de OE, e mais poderão estar se for possível encontrar soluções na discussão na especialidade.
O que os velhos comentadores e colunistas, os profetas da morte anunciada do PCP não perdoam é que seja a intervenção do PCP a contribuir para determinar o futuro e não os seus cíclicos obituários, que o PCP esteja na luta por uma vida melhor para os trabalhadores e para o povo português, por um Portugal de progressos, desenvolvido e soberano, com a força que este colectivo de homens e mulheres põe ao serviço do ideal de emancipação e libertação da exploração.