Celebração de grupo

Jorge Cordeiro

Alguém menos avisado seria levado a associar a afirmação entusiástica «esta noite sabe-me a democracia» aos que lá para os lados da Faculdade de Direito festejavam a vitória de Marcelo Rebelo de Sousa. Ainda que com o benefício dado a quem legitimamente, somando dois mais dois tenha chegado a quatro, aqui se esclarece que a origem de tal expressão em plena noite eleitoral e na posse dos resultados que davam o candidato do PSD e do CDS eleito à primeira volta, tem de ser procurada mais a Norte, no Coliseu do Porto onde o Bloco se juntava.

Sendo a exclamação, não de Marcelo, mas sim de Marisa Matias, aqui se contribui para a devida correcção, com a devida compreensão pelos que levados pela altissonante afirmação foram conduzidos à errada ilação. E para os que mais incrédulos se possam interrogar quanto ao desfasamento entre a situação vivida e o que perante ela alguém disse, registe-se apenas que não raras vezes a candidata Marisa e o Bloco enganando-se quanto ao adversário fizeram de Edgar Silva o alvo da sua campanha.

Os que como Marisa, Louçã, Mortágua ou Rosas decidiram desvalorizar e atacar Edgar Silva e o PCP recorrendo à exploração dos temas que consideravam poder facturar eleitoralmente, por mais populistas que fossem, ou sem qualquer hesitação optaram por faltar à verdade ou dispensar o rigor exigido para marcar diferenças (em alguns casos com abordagens que deviam envergonhar quem se afirma de esquerda), podem celebrar, em grupo e de peito feito, o resultado que tiveram, mas dificilmente podem apagar o resultado negativo para o País da eleição de Marcelo.

E aos que daquele lado se preparam para dizer, esgrimindo o resultado que ostentam, que não foi ali que «houve um problema», recomenda-se que reflictam em toda a sua dimensão os resultados práticos de terem optado, na voragem da conquista de uns votos fáceis, pela exploração nos limites da demagogia e do populismo de uma questão (as subvenções vitalícias) que sendo obviamente criticável e inaceitável, terá arrastado dezenas de milhares de votos para o campo favorável a Marcelo Rebelo de Sousa.




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