Comentário

Terrorismo: presente e passado

Inês Zuber

Image 19413

Os atentados terroristas que aconteceram há dias em Paris, tais como os que tinham acontecido poucos dias antes em Istambul, são crimes horríveis. Como foi dito em comunicado de imprensa do PCP, os atentados demonstram uma necessidade – a da paz, da política de respeito pelo direito internacional, do fim das agressões contra estados soberanos, do fim da criação de situações de instabilidade entre facções religiosas, estratégia usada pelo imperialismo para criar o caos nestes países, de forma a melhor os dominar.

No momento em que escrevemos este artigo, ainda não decorreu a sessão plenária do Parlamento Europeu do mês de Novembro. Muito se discutirá sobre o drama do terrorismo. Muito se falará sobre o futuro e a necessidade de o combater. Pouco se dirá, sobretudo pela maioria do Parlamento Europeu, do passado e do apoio da União Europeia ao recrudescimento do terrorismo.

Voltemos ao Parlamento Europeu, por exemplo, ao dia 16 de Fevereiro de 2012. Foi apresentada uma resolução comum pelos grupos políticos da direita, da social-democracia, dos conservadores, dos liberais e dos Verdes sobre a situação na Síria, obviamente aprovada. Nesta resolução saudava-se «o apoio da vice-presidente da Comissão Europeia/Alta-Representante à criação de um grupo de contacto formado por países "Amigos do Povo Sírio" que sejam favoráveis às mudanças democráticas na Síria, que inclua a Turquia e os membros da Liga Árabe» e no qual acolhia «com satisfação», encorajando «os esforços actualmente envidados pela oposição síria para estabelecer uma plataforma unida dentro e fora do país, para continuar a colaborar com a comunidade internacional, em particular com a Liga Árabe, e para trabalhar em prol de uma visão comum para o futuro do país e da transição para um regime democrático»; instava «a UE a intensificar o seu apoio político, técnico, comunicacional e humanitário às forças oposicionistas». Os deputados do PCP votaram contra. E escreveram em declaração de voto: «A maioria do Parlamento Europeu coloca-se do lado das potências da NATO e das monarquias obscurantistas e reaccionárias da região no financiamento e no fornecimento de armas aos grupos que têm atacado populações civis, edifícios públicos, raptado e matado civis inocentes».

Confirmou-se o total desastre humanitário e civilizacional que significou esta política de apoio a mercenários.

Os EUA, a NATO e a UE envenenaram, desde essa altura, a opinião pública com a propaganda da urgência de deitar abaixo o governo de Assad, na Síria, e apoiarem as supostas «forças democráticas» no país agregadas num tal de Exército Sírio Livre. A obsessão em derrubar Assad foi repetida entusiasticamente, em nome da democracia, tal como antes tinha sido sobre o Iraque ou a Líbia, onde, depois da destruição, as «potências democráticas ocidentais» deitaram as suas garras de leão aos valiosíssimos recursos energéticos. No Verão de 2012, pelas fronteiras com a Jordânia entraram dezenas de milhares de mercenários recrutados em países como a Líbia e o Afeganistão, muitos deles pertencentes a grupos terroristas. Entrou armamento no país, nomeadamente armamento pesado como armas antitanque e foguetes lança-granadas fornecidos pela NATO, por via da Turquia e pelas monarquias ditatoriais do Conselho de Cooperação do Golfo. Tratava-se de grupos armados e financiados a partir do exterior por uma coligação de terror liderada pelos EUA, França e Alemanha, operacionalizada pela Turquia e financiada pelo Qatar e Arábia Saudita. Foi pública a presença de agentes estrangeiros britânicos e franceses no terreno e de agentes da CIA que treinavam e escolhiam os homens que a partir de campos de treino na Turquia eram infiltrados no país. Na verdade, foi do apoio dos EUA, NATO, UE e ditaduras do Golfo a mercenários fanáticos religiosos, entre os quais a Al-Nusra, um dos braços da Al-Qaeda, que surgiram as condições para que, de um momento para o outro, o mundo assistisse ao aparecimento misterioso e súbito do «Estado Islâmico». Tal como há uns anos com os talibãs, o monstro virou-se contra o criador. Importa agora que a viragem do monstro contra o criador não seja pretexto para mais guerra, para a limitação de liberdades e direitos democráticos, para a imposição de agendas xenófobas.




Mais artigos de: Europa

Vidas ao abandono

As Nações Unidas e a Organização Internacional para a Migrações denunciam as condições insuportáveis em que se encontram milhares de refugiados nos Balcãs ocidentais.

Inverter as políticas

O plenário do PE aprovou, dia 24, o relatório da deputada do PCP, Inês Zuber, que apela ao combate às desigualdades sociais e em particular à pobreza infantil.

Gregos assinalam revolta de 1973

Dezenas de milhares de pessoas assinalaram por toda a Grécia o 42.º aniversário da insurreição de estudantes e trabalhadores contra a ditadura dos coronéis. Em 17 de Novembro de 1973, os tanques assaltaram a Escola Politécnica de Atenas,...

Trabalhadores de Coimbra visitam PE

Um grupo de meia centena de trabalhadores e reformados do distrito de Coimbra foi recebido, dia 18, no Parlamento Europeu, pelo deputado Miguel Viegas. A visita realizou-se no âmbito de uma deslocação às instituições comunitárias, a convite...