A brigada da intriga

Correia da Fonseca

Ao longo de muitos dias, o senhor Presidente da República recebeu diversas figuras mais ou menos públicas, todas ou quase todas cuidadosamente seleccionadas de modo a exprimirem opiniões convergentes com os firmes e bem conhecidos convencimentos do próprio senhor PR. Infelizmente, essa prática não lhe permitiu aceder a resultado melhor que o de ganhar algum tempo enquanto o País o perdia, pois ao fim de todos esses dias permaneceu intacta a regra segundo a qual em democracia o voto da maioria do povo manda mais do que a obstinação de um sábio formado no Quelhas do tempo de Salazar e retocado em Oxford no tempo da Thatcher. Ainda assim, o senhor Presidente não desistiu de mandar, essa glória vã segundo Luís Vaz e segundo Manoel de Oliveira, pelo que chamou a Belém o secretário-geral do PS para lhe impor uma espécie de programa de governo em óbvia indiferença pela Constituição da República, que não confere ao PR poderes de governação, mas em plena coerência com a excelente ideia que o senhor Presidente fará de si próprio. De tudo isso, idas e vindas em Belém, declarações à saída das audiências, perguntas dos jornalistas para ali destacados, nos foi dando a televisão imagens e sons, como lhe cumpre, perante a já um pouco impaciente espera dos eleitores que, ia para dois meses, haviam votado para se verem livres dos sujeitos que ao longo de quatro anos lhe haviam infligido sofrimentos duros e vários. Já havia quem aventasse que o senhor professor iria manter o vaivém de entradas e saídas pelo Pátio dos Bichos ou por qualquer outro até que na primeira quinzena de Março alguém decidisse, enfim, encaminhar o País para uma normalidade institucional que a governança de gestão obviamente não tem.

Óleo em antigas fogueiras

Enquanto isto, em estúdios de TV instalados em Lisboa ou em Carnaxide ou em Queluz de Baixo, uma interessante quantidade de opinantes tem vindo a entretecer uma teia de observações pouco divergentes entre si e sobretudo coincidentes na denúncia de factores entendidos como proibitivos dos entendimentos anunciados. Dizem eles que os acordos havidos entre o PS e os três partidos à sua esquerda com representação parlamentar não deviam ter acontecido precisamente porque todos eles são diferentes entre si, de onde o vaticínio da sua quebra a prazo curto. É certo que a solidez do argumento é duvidosa, pois bem se sabe que quaisquer acordos negociados, quer escritos quer apenas consumados em práticas, só ocorrem entre protagonistas diferentes e em função de um ou mais objectivos comuns, como aliás foi provado durante as décadas em que, com o fascismo no poder, a militância antifascista não foi exclusiva dos comunistas e se alargou a um amplo leque de convicções políticas convergentes no propósito de derrubar a ditadura. Ora, acontece que a actualidade se mostra de algum modo herdeira desse tempo: de um lado, uma direita em que são detectáveis vínculos de filiação relativamente à situação anterior a Abril embora sem os seus mais criminosos traços; do outro lado, um conjunto de cidadãos unidos pelo propósito de exterminar todos as práticas que possam assemelhar-se a um «24 de Abril» supostamente «aggiornato». Ora, acontece que neste quadro surgiram nas diversas estações algumas criaturas de suposto bom coração empenhadas em evitar que a esquerda incorra em enganos: enfatizam as diferenças entre uns e outros, recordam velhas divergências, profetizam inevitáveis rupturas, lançam óleo em antigas e extintas fogueiras. Praticam, enfim, uma espécie de guerrilha discursiva formando na TV o que bem pode ser designado por «brigada da intriga». Reconheça-se terem para esta actividade uma indiscutível vocação. Que contudo está condenada ao fracasso se, como se espera, for adequadamente identificada e, nos actos, respondida como se impõe.




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