A solidariedade é mais urgente
No dia 2 de Dezembro de 1977, a Assembleia Geral das Nações Unidas aprovava uma resolução estabelecendo a observância anual, a 29 de Novembro e com início no ano seguinte, do Dia Internacional de Solidariedade com o Povo da Palestina. Nessa data, trinta anos antes, a mesma Assembleia Geral da ONU tinha aprovado a resolução n.º 181, determinando a partilha do território da Palestina, administrado desde 1920 pela Grã-Bretanha, em dois estados, um judaico e outro árabe. Já na ocasião, a decisão de marcar, como dia de solidariedade com o povo palestino, a data da aprovação da divisão do seu território reflectia a dificuldade em fazer cumprir a decisão tomada em 1947, reconhecendo as aspirações nacionais do povo palestino. Quase setenta anos depois, a atitude de Israel de confronto aberto com a lei internacional, só possível dado o estatuto de total impunidade de que goza, acentuou até aos limites do insuportável aquela injustiça. Sempre com o apoio expresso dos Estados Unidos da América e a conivência ou em alguns casos a cumplicidade da União Europeia, Israel não apenas se recusa a cumprir as obrigações internacionais que decorrem das centenas de resoluções aprovadas no Conselho de Segurança e na Assembleia Geral como prossegue e acentua a colonização e ocupação de todo o território da Palestina, reprimindo de forma brutal a resistência legítima do povo palestino, e evidenciando de maneira cada vez mais patente a natureza colonial, xenófoba e segregacionista do seu regime.
A luta do povo palestino enfrenta, por estes dias, mais uma vaga criminosa de repressão. Segundo dados do Centro Palestino para os Direitos Humanos, entre os dias 2 de Outubro e 17 de Novembro, foram assassinados pelos exército israelita oitenta e um palestinos, na sua maioria em situações que configuram verdadeiras execuções públicas e sumárias, os seus corpos crivados de balas1. Calcula-se que desde o início do mês de Outubro tenham sido presas cerca de mil crianças, algumas de tenra idade, como Abdullah Youssef, com apenas seis anos, detido pelos militares israelitas no passado dia 17 de Novembro2. Os agentes da propaganda sionista na comunicação social portuguesa falam, uma vez mais, do que designam por «campanha de terror» levada a cabo por jovens palestinos contra cidadãos de Israel supostamente indefesos. Tais factos são apresentados sempre como erupções de violência, indiscriminada e irracional, num quotidiano aparente de tranquilidade e paz. A representação é clássica e segue o refrão estabelecido desde as primeiras revoltas palestinas massivas contra a colonização sionista, nos anos vinte e trinta do século passado, então brutalmente reprimidas pelo exército britânico. Também nessa ocasião, as acções palestinas eram descontextualizadas, politicamente esvaziadas, reduzidas ao exercício gratuito de violência. Hoje, tal campanha ideológica é acompanhada pela tentativa insistente de assimilação da resistência palestina aos grupos terroristas que combatem na Síria, numa atitude dúplice que esconde a convergência objectiva de interesses e as ligações operacionais que o aparelho militar de Israel mantém com esses grupos. Um tal discurso tem um objectivos claro: legitimar a ocupação, ocultar a sua natureza opressiva, a sua quotidiana omnipresença nas humilhações infligidas nos postos de controle do exército israelita, na destruição de casas, árvores e campos de cultivo, nas prisões arbitrárias, na acção terrorista e totalmente impune dos colonos sionistas.
Entretanto, perante o falhanço das negociações iniciadas com os acordos de Oslo e o impasse num processo político capaz de reconstituir a unidade do movimento de resistência nacional, o povo palestino demonstra uma vez mais que a marcha emancipadora dos povos não conhece becos sem saída, e que nos momentos mais difíceis e complexos a resistência popular, em todas as suas formas, é capaz de criar as alternativas que fazem a luta avançar. Por isso, a solidariedade com a sua luta se faz hoje mais urgente e necessária do que nunca. Pode mesmo dizer-se que ela é um imperativo ético e político do tempo que vivemos, uma linha vermelha que separa os que lutam pela liberdade daqueles que caucionam a injustiça, os que defendem o primado da lei e o respeito pelos direitos do homem daqueles que transigem com a violação de tais princípios. Que ninguém falte à chamada.
1 http://www.pchrgaza.org/portal/en/index.php?option=com_content&view=article&id=11323:palestinian-victims-killed-by-israeli-forces-since-02-october-2015&catid=145:in-focus. Ainda sobre este ponto, a Amnistia Internacional divulgou no final de Outubro um relatório onde sustenta, a partir do estudo de alguns desses casos, que a execução extra-judicial constitui um padrão de comportamento do exército israelita: https://www.amnesty.org/en/press-releases/2015/10/israeli-forces-must-end-pattern-of-unlawful-killings-in-west-bank/.
2 http://www.maannews.com/Content.aspx?id=768877.