Angola, quarenta anos

Correia da Fonseca

O quadragésimo aniversário da independência da República Popular de Angola foi assinalado com maior ou menor atenção pelos diversos canais portugueses de TV, os generalistas porventura com registos mais sumários, talvez um pouco mais atentos os canais de vocação informativa. De entre todas essas referências, merecerá destaque a reportagem de Vítor Bandarra que a TVI24 transmitiu no passado dia 9 por volta da hora do almoço. Quem pesquise um pouco na Net descobrirá sem dificuldade que a Vítor Bandarra não faltam ali comentários hostis e mesmo insultuosos, o que é um bom sinal: ainda que não assinados, pois que o anonimato é uma boa trincheira para alguns, é fácil adivinhar que provêm dos muitos admiradores desse grandessíssimo democrata que foi Jonas Savimbi, e dos não menos democratas que do lado de lá do Atlântico lhe pagavam o combate. De qualquer modo, as agressões informáticas a Bandarra não são assunto para estas colunas, o que interessa aqui são os diversos méritos da reportagem que o jornalista assinou: a homenagem implícita nas imagens de Agostinho Neto ao proclamar a independência da República Popular de Angola, a referência à agressão da então racista República da África do Sul sustida pelo auxílio fraterno da Cuba internacionalista, a memória (agora por cá muito esquecida) das vitórias do MPLA em eleições certificadas como «livres e democráticas» pelos observadores internacionais, a abordagem directa a genuína gente do povo angolano, o registo de uma qualificada presença portuguesa (o tenente-coronel Santos e Castro) nas hordas que sob o comando de Holden Roberto e mais uma vez subsidiadas de longe tentaram apoderar-se da Angola enfim independente. E, é claro, a tácita garantia de que Angola é um país com futuro promissor por muito que, manipulado por quem o pode fazer, o preço do petróleo suscite dificuldades a Angola, como à Venezuela e, num outro grau, à Rússia.

Enfim, o contraditório

Ao que parece, em Angola circula a convicção de que no nosso País existem lóbis hostis ao governo angolano e apoiantes de quanto se oponha ao MPLA. Existirão ou não: essa dúvida, se dúvida existe, não é matéria para estas duas colunas. O que é factual para quem tenha ouvidos para ouvir e olhos para ver é que há por cá muitos sujeitos e sujeitas que de facto ainda se recusam a admitir a independência de Angola e a reconhecer a sua legitimidade histórica, muitos saudosos de um quotidiano em que preto era criado espancável e branco era senhor inquestionável mesmo que boçalíssimo e brutal, em que damas analfabetas se reuniam para bebericar chás servidos por escravas rigorosamente «para todo o serviço». Um dos aspectos dessa resistência aos princípios do Direito Internacional e a uma libertação verdadeiramente conquistada pelo preço de «sangue, suor e lágrimas» é o péssimo olhar lançado por alguns sectores da sociedade portuguesa à entrada em Portugal de capitais angolanos: eles, que sempre gostosamente se conformaram com a entrada vultosa de capitais ingleses (mais no passado), norte-americanos ou alemães, mostram enjoo perante capitais vindos de Angola e, para o justificar alegam argumentos «democráticos». Pois bem: é também contra gente dessa que colide a imagem de uma Angola não apenas enfim livre mas também poderosa que nos é dada pela reportagem transmitida pela TVI24. Com razão ou sem ela, adivinha-se que haverá por aí quem sussurre que Vítor Bandarra é «persona grata» ao poder de Luanda: terão de ter paciência, nem todos podem ter aversão a José Eduardo dos Santos por a sua formação em engenharia ter sido feita na Moscovo ainda soviética. Em verdade, as diversas referências televisivas a Angola e à sua realidade pretérita e actual, eivadas de aversão e veneno, precisavam urgentemente do chamado «contraditório». Chegou agora com a reportagem de Víctor Bandarra, e não é possível negar-lhe uma palavra de boas-vindas.




Mais artigos de: Argumentos

Álvaro Cunhal e a independência das ex-colónias

No passado dia 10 de Novembro assinalou-se o 102.º aniversário do nascimento de Álvaro Cunhal. Não esquecendo a grande homenagem que lhe foi prestada nas comemorações do centenário do seu nascimento, importa assinalar esta data, de que será importante momento...

Mobilizar a juventude para a luta

«Ir para junto das massas juvenis, mobilizá-las para a luta, reforçar a JCP». Esta é uma síntese possível das conclusões da Direcção Nacional da JCP na sua reunião de Outubro de 2015 e em grande medida a tarefa fundamental que, de forma...