Suseranias

Henrique Custódio

A suserania que a direita julgava exercer sobre o País mergulhou numa piscina de água gelada em 4 de Outubro passado e, desde aí, arrefece a olhos vistos.

A gritaria em cena amansa todos os dias, bramando cada vez menos desde o célebre «golpe de Estado» proclamado por Manuela Ferreira Leite na assumpção da hecatombe e, hoje, filigranam nas redes que podem – comunicacionais, formais ou informais – uma teia de interrogações armadilhadas, de suposições de pé-de-galo, de ameaças mascaradas de advertência, de previsões catastróficas e de juízos de intenção sem pudor ou reserva. Tudo para turvar as águas, borrifar a realidade com molha-tolos e épater le bourgeois, enquanto se desunham a magicar onde desferirão contra-ataques que não os comprometam.

É neste redemoinho que ciranda a direita, ora «prevendo» catástrofes sortidas num futuro governo de apoio parlamentar à esquerda (hecatombe nos «mercados», desconfiança dos «fiadores», etc.), ora escrutinando ao milímetro suposições mirabolantes sobre as negociações em curso entre PS, PCP e BE, que ninguém conhece nem tem que conhecer, ora vaticinando derrocadas pátrias pelo «abandono dos sacrifícios», ora catastrofizando «as exigências de Bruxelas» e o «confronto com os compromissos internacionais».

Neste faz-de-conta monumental o Presidente da República finge que dá posse «a um governo para quatro anos» e o Governo-para-quinze-dias saracoteia-se nos ademanes de uma legislatura que sabe de ciência certa não ir ocorrer, enquanto uma legião de comentadores e jornalistas caracoleiam e dirimem os significados que medeiam entre os dois discursos presidenciais proferidos, um na indigitação do actual Governo, outro na sua tomada de posse, procurando dilatar o mais que podem o novo «tabu» presidencial, que consiste em dar ou não dar «posse» a um governo do PS assente num apoio parlamentar de esquerda, lendo por isso nas entranhas das suas aves Fénix os mais estrídulos e bambochantes vaticínios.

A semana que ora decorre surge como um largo intermezzo onde vogam placidamente os cisnes deste ballet, enquanto as prima-ballerinas que costumam protagonizar os sollo do espectáculo se escondem nos camarins das suas mansões e luxuosos apartamentos, à espera que o gongue soe e a hora se lhes afigure propícia a entradas acutilantes, de preferência à estacada – desde que não literal, que isso dói –, para desferir «sobre a esquerda» os golpes que forem necessários para sobre ela restaurar a suserania de antes de 4 de Outubro (e, já agora, como eco de antes de 5 de Outubro, mas de 1910).

Para a semana reata-se a conversa, já com o veredicto da Assembleia da República devidamente lavrado e separadas as águas entre os que querem encetar o caminho de uma política alternativa, que é o que a esmagadora maioria do povo português quer e afirmou nas urnas, e os que querem mais do mesmo.

 



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