A Maioria
Dê-se as voltas que se queiram sobre os resultados eleitorais, nenhuma poderá fugir de um facto: a direita, concentrada no «PAF» do PSD/CDS, obteve 38,8 por cento (1 981 459 votos), tendo contra si todos os outros resultados, que somam 50,9 por cento e 2 736 845 votos (considerando apenas os do PS [32,4%], do BE [10,2%] e da CDU [8,3%]) ou 53,4 por cento, (se aceitarmos também os resultados residuais do PAN [1,4%] e do PDR [1,1%], com a sua hostilidade, igualmente declarada, ao Governo ou às suas políticas).
A direita sofreu uma derrota eleitoral avassaladora: menos 12 de percentagem do que nas anteriores eleições legislativas, que corresponde a uma perda de mais de 700 mil votos entre 2011 e 2015 (a coligação no seu conjunto ficou abaixo da votação que o PSD sozinho obteve em 2011).
Mais cataclísmico que isto, apenas o Dilúvio.
E mais importante do que averiguar a quantidade de esquerda contida nestes 53,4 por cento de votos da vitória eleitoral global, impõe-se recortar outra evidência – a de que a direita ficou confinada no PAF, tendo-se o «centro» pulverizado na pauperização imposta ao País (e à dita «classe média») pela política devastadora do Governo Passos/Portas, extremando-se e fixando-se os putativos «centro-esquerda» e «centro-direita» na esquerda e na direita, como acertadamente anotou José Pacheco Pereira.
Pelo que a coligação do PAF é, presentemente, o corpus da direita no nosso País e representa trinta e oito por cento do eleitorado português que votou (e sem contarmos com a subida da abstenção para 43,03% do eleitorado inscrito, grossamente aumentada pela revolta, o desencanto, a indiferença e/ou o protesto contra a política do Governo).
A expressão «vitória pírrica» adequa-se à do «PAF» porque, além de remeter a direita para a exiguidade negocial, expõe-lhe sobretudo a sua exiguidade social.
O que permite concluir que, 41 anos depois do derrubamento do fascismo, a direita continua em flagrante minoria no nosso País – e esse dado foi de novo exposto pelas eleições.
A tentativa de destruição do regime saído da Revolução de Abril – objectivo claro desta coligação de direita – fez, nestes quatro anos e meio, muito mal à democracia, aos direitos conquistados pelos portugueses, à qualidade do Estado e dos seus serviços (incluindo os essenciais, na Saúde, Ensino, Segurança Social e Justiça), além de ter espalhado a desolação nacional com o desprestígio e a desarticulação do Estado e a miséria efectiva de pão e de tecto. São estragos que custarão muito a reparar.
Obviamente, a divisão ideológica em Portugal agravou-se com a sobranceria reaccionária com que o Governo sempre actuou, e que se lhe colou, nestas eleições: de um lado, largamente minoritária, ficou a direita apoiada por votos convictos e expondo a sua fraqueza; do outro, fica toda a gente que se opõe a esta política e a este Governo, que é solidamente maioritária no País.