A verdade detrás da crise na fronteira
A crise fronteiriça entre a Venezuela e a Colômbia tem sido utilizada pela direita internacional como arma de arremesso contra o processo bolivariano. Como é costume, os meios de comunicação mentem descaradamente. Vejamos a verdade.
Venezuela e Colômbia têm um total de 2219 km de fronteira. O lado venezuelano está vigiado por 3000 membros da Guarda Nacional Bolivariana. O colombiano, por um posto de polícias. Para além dos pontos legais, existem centenas de caminhos ilegais para transitar de um lado para o outro. Portas abertas ao contrabando de tudo o que se possa imaginar. Também para a acção dos paramilitares, criação de Álvaro Uribe.
No dia 19 de Agosto, três soldados venezuelanos são feridos durante uma operação de defesa da fronteira. O ataque teve lugar em território venezuelano, perto de Cúcuta, cidade colombiana que vive, em boa parte, do contrabando que lhe chega do outro lado. A Venezuela respondeu com o encerramento da fronteira e posteriormente declarou o estado de excepção em vários distritos da região. Uma decisão soberana, sem dúvida.
Os acontecimentos são de hoje, mas o problema vem de longe, e isso explica que vivam legalmente na Venezuela cinco milhões e 600 mil colombianos – muitos deles emigrantes económicos, não poucos fugidos do paramilitarismo de Ubibe – que desfrutam de todos os serviços sociais (escolas, atenção médica...) disponíveis no país de acolhimento.
Em Julho de 2015, Carlos Tanus, dirigente do movimento Colombianos na Venezuela, deu uma entrevista a um programa de televisão onde avançou algumas informações sumamente interessantes sobre o tema contrabando, também conhecido como bachaqueo. «Perto de 3500 pessoas prosperam dia a dia com o esquema do contrabando. Mas estes estão ao serviço de 25 grandes máfias que operam no corredor fronteiriço». E tudo nasceu com uma decisão tomada pela Colômbia em 2000 (a resolução 8), que cria a figura de casa de câmbio, que deu vida aos compradores e vendedores de divisa, que fixam o valor do bolívar segundo determinam cinco grupos mafiosos ligados ao paramilitarismo que opera em Cúcuta. Perguntado sobre o modus operandi destes delinquentes, Tanus explicou: «Na Colômbia, com 10 mil pesos pode comprar-se dois kg de arroz; com 10 mil pesos, na Venezuela, trocados por bolívares empobrecidos, pode comprar-se até 60 kg». O bachaquero regressa a Cúcuta com esses 60 kg e vende cada um a 4700 pesos. Negócio da China! É por isso, afirma, que ninguém pode estranhar que 62 por cento dos produtos à venda sejam venezuelanos... e por isso faltem no país de origem!
A «solução»
Como é que se chegou a esta situação insólita? Uma as razões está no facto de que quando a Venezuela – onde existe controle de divisas – se viu obrigada a pôr ponto final no envio de remessas familiares para a Colômbia, que era uma enorme fonte de vigarices, Cúcuta e a zona Norte de Santander deixaram de receber a bicoca de um milhão e quinhentos mil dólares por mês! Esses dólares iam parar às mãos de estruturas mafiosas, que agora trabalham através dos bachaqueros.
Como salta facilmente à vista, nem as autoridades de Cúcuta nem as de Bogotá estão na verdade interessadas em controlar o paramilitarismo ou o contrabando, porque a economia informal ajuda a financiar campanhas eleitorais. O ministro do Interior e Justiça está ligado ao desenvolvimento político do Norte de Santander e o seu irmão, Andrés Cristo, é senador. Numa Romero, candidato do Partido Liberal à municipalidade de Cúcuta, foi assessor económico do embaixador colombiano em Caracas... e é presidente da Associação de Cambistas, ou seja preside à associação que está a empobrecer a Venezuela!
Mas as autoridades colombianas, cujas vozes mais mediáticas hoje são o presidente Santos, ex-ministro de Uribe, e a aristocrática Holguín, têm uma solução a propor. A chanceler Holguín admite que o contrabando está a «sangrar» a Venezuela e aponta um remédio: acabar com os subsídios. «Enquanto vocês, afirma impávida, continuarem a subsidiar os produtos é muito difícil que nós consigamos fazer alguma coisa de verdade para lutar contra o contrabando». É de abordagens políticas como esta que resulta o facto de que entre 2008 e 2013 a Colômbia descesse dois degraus no Índice de Desenvolvimento Humano e esteja no lugar 98 (entre 198 países) e a Venezuela no 67. E também que a Colômbia seja 12.º no ranking mundial de países mais desiguais e a Venezuela o menos desigual da América Latina.