Em tempo de imposturas
A julgar pelo que se vê e se ouve nos televisores, que é o que sobretudo interessa a estas colunas, pensar-se-á que o «caso grego» ficou encerrado ao menos por uns tempos. Admitamo-lo, mais tarde se verá o conteúdo de capítulos seguintes. De qualquer modo, de quanto fomos assistindo ao longo dos últimos meses, se não desde há mais tempo, ficou claro o verdadeiro significado do que é entendido como «solidariedade» pelos países do centro e do Norte europeus: zero. É sabido que a conduta desses países é comandada pela Alemanha que, após a muito celebrada reunificação, se encontrou finalmente em condições de assumir sem disfarces o seu ambicionado projecto de se constituir em «fuhrer» da Europa submetida pelo poder das armas económico-financeiras que também podem matar, mas muito menos e muito mais discretamente do que os meios bélicos tradicionais. E aquilo a que nos foi dado assistir remete-nos para uns anos atrás, para o tempo em que graças aos talentos manipulatórios de técnicos «made in USA» a Grécia foi admitida na UE e na Eurozona, como aliás aconteceu com o nosso País aparentemente sem necessidade de idênticas habilidades. Nessa altura, como decerto bem nos lembramos, o isco mais apetitoso que nos foi proposto foi o de que, a partir da adesão, o punhado de países que compunham essa «Europa unida» estaria solidário com Portugal, presumivelmente para o bem e para o mal, como se diz nos rituais casamenteiros. Era a famosa «Europa connosco», fórmula sintética muito apregoada bem nos lembramos por quem. Muita gente acreditou, naturalmente, e não parece extravagante supor que a generalidade do povo grego tenha incorrido na mesma credulidade. Afinal, que diabo!, eram os governos dos mais importantes estados da Europa, gente certamente muito séria, se eles prometiam a solidariedade não podia haver dúvidas de que a solidariedade estava garantida. Sabemos agora como a Grécia experimentou a realidade desse simpático compromisso: os mais elementares e óbvios interesses do povo grego foram dilacerados pelos dentes afiados da alcateia «europeia». A «solidariedade» não era mais, pois, do que uma solene impostura, e o governo português participou empenhadamente no massacre.
Onde se lembra Camões
Nem tudo, porém, é «Europa» e política externa: Portugal existe como país e os portugueses existem como povo, de onde a necessidade de um governo e de uma gestão. Sabemos como ela tem sido e para caracterizá-la até poderemos regressar a Camões: «Leis a favor do rei se estabelecem,/as a favor do povo só perecem», escreveu ele em dois versos verdadeiramente patrióticos e de esquerda a quase cinco séculos de distância. Entre as diversas pestes que Passos Coelho & Associados derramaram sobre o País avulta a do desemprego, palavra que frequentemente cobre e implica diversos horrores concretos que vão da fome de crianças até ao suicídio de velhos. Pois bem: perante esse resultado que os media se coíbem de apregoar mas a generalidade dos cidadãos conhece, decidiu o Governo tomar uma providência. Não uma qualquer, mas a que provavelmente está mais próxima da sua capacidade, se não da sua vocação: a falsificação de estatísticas. É fácil, como já foi claramente percebido: basta pegar no número real do desemprego e abater-lhe o número de trabalhadores desempregados que por obrigação frequentam inúteis «cursos de formação», mais o número de desempregados que trabalharam uma hora por semana ou pouco mais num «gancho» eventualmente surgido, mais as centenas de milhares de desempregados que partem para outros países em busca do que não encontram aqui, mais outras situações que aqui nos escapem, e fica um número final jeitoso para apresentação ao povo indignado. E indignado porque, sendo povo e vivendo a realidade, sabe que lhe estão a mentir. Indignado porque indignar-se não apenas é um direito como também é um dever. Porque o próprio direito fundamental à sobrevivência individual e colectiva diz que o tempo das imposturas, em Portugal como na Europa, é um reinado sinistro que tem de acabar.