70 anos da Conferência de Yalta e Potsdam
Assinala-se agora os 70 anos da Conferência de Postdam que decorreu entre 17 de Julho e 2 de Agosto, e que deu continuidade à Conferência de Yalta, realizada em Fevereiro desse mesmo ano. Estas conferências internacionais de Yalta e Potsdam deram uma contribuição à construção da hegemonia económica internacional norte-americana no capitalismo do pós Segunda Guerra Mundial.
De facto, é conhecido que a Segunda Grande Guerra foi responsável por cerca de 60 milhões de mortos e muitos milhões de feridos, pela destruição de milhares de cidades, vilas e aldeias, de equipamentos, fábricas e estruturas básicas de muitos países sobretudo da Europa e de parte da Ásia. Por isso, o contexto histórico que envolveu estas duas conferências era de uma Europa devastada pela guerra, da qual também a Itália e a França sairiam debilitadas e a própria Grã-Bretanha em declínio.
Por um lado, as forças nazis alemãs ocuparam e destruíram parte da Europa e, por sua vez, o esforço da URSS e do seu Exército Vermelho na luta contra o nazi-fascismo alemão e, mais tarde, nipónico, debilitou a sua economia.
Assim, a única grande potência industrial do mundo que praticamente surgiu intacta da guerra foram os EUA que apenas entraram já na parte final e poucas destruições sofreram, tendo antes aproveitado essa sua entrada tardia para ajudar a maiores destruições, de que os casos de Nagazaqui e Hiroshima são os mais significativos, mas não os únicos. Essa situação permitiu-lhes consolidar as suas posições de diversas formas: económica e financeira, política e militar.
Foi neste contexto que se realizaram, ainda em 1945, as duas importantes conferências de Yalta e Potsdam. Mas não se pode esquecer que nesse mesmo ano se realiza a Conferência Financeira Internacional de Bretton Woods, e que, em 1947, surge o Plano Marshall e o Acordo Geral de Tarifas e Comércio – GATT e, em 1949, a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN ou NATO). Recorde-se que o Pacto de Varsóvia só viria a ser constituído em 1955.
A Conferência de Yalta, na Crimeia, realizou-se em Fevereiro de 1945, numa Europa já muito devastada e incluiu três dirigentes das três potências que anteriormente se tinham reunido em Teerão (1943) numa primeira tentativa de articulação para derrotar o nazi-fascismo alemão: a Inglaterra, representada por Winston Churchill, os EUA, representados por Franklin Roosevelt e a URSS representada por Estaline.
Foi em Yalta que se deram passos importantes para derrotar o nazi-fascismo e se iniciaram as tentativas para o reordenamento geopolítico do imediato pós-guerra. É, por exemplo, aí que, a pedido dos EUA, se decide a entrada da URSS na Guerra da Manchúria para ajudar na luta contra o Japão onde os EUA estavam envolvidos.
Começo da Guerra Fria
Depois de todo o esforço desenvolvido pela URSS e da entrada triunfal do Exército Vermelho em Berlim, obrigando à rendição do nazismo alemão, e cinco meses após a Conferência de Yalta, realizou-se a Conferência de Potsdam, perto de Berlim. Aí, em 17 de Julho de 1945, juntaram-se os mesmos três países aliados, mas com algumas mudanças na representação. Os EUA estiveram representados pelo novo presidente Harry Truman e, durante a Conferência, Churchill, que, entretanto, perdera as eleições na Inglaterra, foi substituído por Clement Atlee, o novo primeiro-ministro inglês.
Mas vários historiadores sublinham que o clima de concórdia que parecia existir em Yalta estava profundamente alterado em Potsdam, seja pela postura diferente de Truman, seja porque os EUA tinham já realizado um teste com a bomba atómica no deserto do Novo México, em meados de Julho, a qual, aliás, não hesitaram em utilizar no Japão, poucas semanas depois, sem qualquer aviso prévio, tornando clara a sua tentativa hegemónica de liderar o mundo sem ajuda soviética.
Os tempos eram claramente outros, com o nazi-fascismo derrotado, os países europeus muito debilitados e uma economia florescente nos EUA, com a sua indústria a crescer mais de 15 por cento ao ano entre 1940 e 1944, sobretudo resultado de uma produção para a guerra que, pensaram os seus dirigentes, poderia ser utilizada, depois, para a reconstrução na Europa.
Em Potsdam foi também decidido, além da questão das indemnizações de guerra, que nunca se viriam a concretizar na globalidade, e do julgamento dos criminosos de guerra em Nuremberga, evitar que a Alemanha voltasse a ameaçar o equilíbrio geopolítico europeu, tendo ficado assegurada a sua separação da Áustria e uma divisão do seu controlo entre EUA, Inglaterra e França que controlariam dois terços e a URSS apenas cerca de um terço depois de revistas as fronteiras com a Polónia. Os aliados editaram igualmente a Declaração de Potsdam que ultimou os termos de rendição do Japão (o que bem demonstra que não era necessário utilizar as duas bombas atómicas no início de Agosto), tendo decidido adiar os outros assuntos para uma conferência de paz final, que seria convocada assim que possível, mas que, de facto, não se chegou a realizar.
Assim, apesar da importância decisiva da participação da URSS na luta contra o nazi-fascismo e da vitória incontestável conseguida em 8 de Maio com a rendição da Alemanha perante a entrada do Exército Vermelho em Berlim, os EUA procuraram utilizar a sua força económica e militar para apoiar a recuperação do capitalismo nas suas zonas de influência na Europa, de que o Plano Marshall foi um exemplo. Mas que se reforçaria também no plano militar, com a criação da NATO, em 1949, onde não hesitaram em incluir Portugal – com o governo fascista de Salazar – nos 12 países signatários, em Washington, do Tratado do Atlântico Norte.
Por isso, há quem veja nestas Conferências a criação das condições para o início da chamada Guerra Fria, assente num discurso que reforçava a bipolaridade para manter as zonas de influência delimitadas em Yalta, a corrida armamentista para o equilíbrio de poder e a dissuasão ou contenção, através do Plano Marshall e da proliferação de bases militares norte-americanas pelo mundo.
Na verdade, com tudo isto, a economia dos EUA fortaleceu-se, o que se traduziu, também, em investimentos, em pesquisas e tecnologia, proporcionando um grande poder militar – sustentado pela corrida armamentista, culminando na constituição de um complexo industrial-militar que passou a ser economicamente essencial aos EUA – e em poder político, o que, em conjunto, foi essencial para a sua tentativa de domínio mundial, utilizando a NATO e diferentes formas de agressão e ingerência para impor as suas regras e garantir os seus interesses, pondo em causa a paz mundial.