O festival de teatro de Almada

José Carlos Faria

O Festival de Teatro de Almada vai já na sua 32.ª edição. Cresceu e consolidou-se, facto notável num país onde o precário parece fazer lei e o fogacho a regra. Criado e impulsionado depois durante muitos anos pelo entusiasmo dinâmico e pelo labor relevante do encenador Joaquim Benite, o Festival assumiu uma expressão muito diversificada com a incorporação complementar da dança, cinema, concertos, exposições, encontros, colóquios e debates, acções de formação, lançamentos editoriais e actividades de animação, tendo adquirido uma dimensão internacional que faz dele uma referência de vulto e a mais importante iniciativa do género organizada em Portugal.

Assente na divulgação de um reportório de grande qualidade na base da montagem de textos clássicos e contemporâneos, programando o que de melhor e mais significativo se vai produzindo no nosso País, integrando, em paralelo, a possibilidade do conhecimento de alguns dos mais importantes nomes do panorama teatral mundial e dos espectáculos por eles gerados, o Festival contribuiu de forma assinalável para a superação de um atraso estrutural que o Teatro Português padecia (e que aliás, apesar de mitigado, se mantém) face aos seus congéneres europeus. É que a política do «orgulhosamente sós» alimentada pela ditadura acarretou, também na Cultura, consequências desastrosas causadas pela censura e repressão que, de modo feroz, pretendiam enclausurar o livre pensamento e amordaçar e acorrentar o acto criador. Exemplo tristíssimo, lamentável e revelador desta pulsão obscurantista esteve nos acontecimentos que rodearam a digressão da companhia brasileira de Maria della Costa, a qual, no início da década de 60, traria a Lisboa, com «A Boa Alma de Sé-Tsuan», a primeira peça de Bertolt Brecht (um dos autores fundamentais do século XX) a ser apresentada em território nacional. Interrompida a representação devido a provocações por parte de agentes da Pide infiltrados na assistência, o espectáculo acabaria por ser liminarmente proibido.

Serviço Público

Enquanto o País ia assim vegetando à margem do Mundo, forte contraste se estabelecia dado que, após o final da II Guerra Mundial, tinha entretanto sido introduzido, nos países saídos do conflito, um formidável movimento de expansão e descentralização teatral, que nomeadamente em França, passava pela constituição de uma rede pública de teatros com companhias profissionais residentes e pelo surgimento do Festival de Avignon, cuja realização regular permaneceu até hoje. Ora, por cá, a ponte sobre o fosso profundamente cavado entre essas duas realidades, tão distintas e distantes, só seria cruzada 30 anos depois, quando os bons ventos de Abril trouxeram consigo a democracia e a democracia cultural, permitindo então afastar os miasmas apodrecidos da estagnação.

Foi este conceito determinante de Serviço Público artístico que enformou o Festival de Almada, conjugando a criação e o direito constitucionalmente consagrado da fruição cultural e que, apesar dos cortes, da redução dos apoios, da desestruturação e desorçamentação, de todos os entraves e obstáculos quantas vezes artificialmente introduzidos por sucessivos governos incapazes de disfarçar o desdém e o preconceito que os move, mais a mediocridade de visão que exibem, foi sendo possível, num exercício difícil, colocar o público português, a par do trabalho desenvolvido por grupos e criadores nacionais, em contacto com obras essenciais e marcantes do teatro contemporâneo, patentes em estruturas incontornáveis e de enorme prestígio como o Berliner Ensemble ou o Piccolo Teatro de Milão, o Odeon-Théâtre de l’Europe ou o Théâtre de la Ville de Paris, a Volksbühne ou a Schaubühne, Els Joglars ou o Teatro Lliure de Barcelona, na beleza plástica dos cenários de Richard Peduzzi ou Ezio Frigerio, na direcção de um extenso rol de encenadores como Giorgio Strehler, Peter Brook, Benno Besson, Mathias Langhoff, Patrice Chereau, Peter Stein, Bernard Sobel, Roger Planchon, Lluis Pasqual, Peter Zadek, Georges Lavaudant, Manfred Karge, Luc Bondy ou Emmanuel Demarcy-Mota, ou ainda na memorável actuação de actores como Ferrucio Soleri na personagem do seu comovente Arlequim.

Alerta poderoso

Verificando-se um assinalável e extraordinário fluxo de público que desmente, numa prática virtuosa, aqueles que defendem não haver audiências senão para os subprodutos de cariz comercial, o Festival tem propiciado que o teatro possa cumprir a sua missão mais nobre, divertindo e ensinando, num apelo à exigência estética e inteligência política e cidadã dos seus espectadores e consequentemente à elevação da consciência crítica aliada ao disfrutar do prazer.

Em tempos de sérios riscos das trevas de regressão civilizacional e com fundamentalismos vários, do palco vem chegando, para quem o quiser escutar, o alerta poderoso de que o ventre imundo de onde saiu a besta ainda está fecundo!...

Lembrava o poeta e dramaturgo Federico Garcia Lorca, fuzilado pelos fascistas: «O Teatro é um dos mais úteis e expressivos instrumentos para a edificação de um país e o barómetro que marca a sua grandeza ou o seu declínio. (…) Um povo que não ajuda ou não fomenta o seu teatro, se não está morto, está moribundo».

Felizmente, o Festival e o seu público têm provado, de forma exuberante, que estão bem vivos e recomendam-se!

É que dos governantes sabemos nós não se poderem gabar do mesmo…




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