A sopa
«De que serve a bondade/ quando os bondosos são logo abatidos, ou são abatidos/ aqueles para quem foram bondosos?»
Assim começa o poema de Bertold Brecht, que, por estes dias, me tem acompanhado, nomeadamente de cada vez que ouço uns anúncios em que, pelo menos, dois chefes de cozinha se aprestam para nos indicar uma receita.
Um dos cozinheiros anuncia que vai preparar um esparguete com atum e o outro uma sopa de feijão. Saltou-me de imediato o questionamento: porquê estas receitas?
Fui à procura e na página Internet de um dos cozinheiros encontramos, à primeira vista, rolinhos de sardinha com mousse de caranguejo, travesseiro de alheira e grelos, tosta de sapateira com salada da estação, trouxa de mariscos, tártaro de atum e milhos com vegetais. Não encontrei a receita do esparguete com atum.
Relativamente ao outro chefe, fui também à procura da receita da sopinha de feijão (a que a minha mãe fazia era bem boa, por sinal!), mas só encontrei sopa de feijão branco com cogumelos e camarão.
Por que razão então foram escolhidas, para esta ocasião, receitas que não são valorizadas noutros palcos? Faltar-lhes-á, a estas, o glamour? O requinte? Não. Apenas porque é um anúncio a pedir comida para os pobrezinhos. E é suposto que os pobrezinhos, de acordo aliás com a presidente da instituição promotora desta campanha, não comam bifes todos os dias.
Pois é! Os gestores desta autêntica máquina de criar pobres e de disseminar a miséria e a fome, que é o capitalismo, os executores da política de direita, têm sempre umas iniciativas caridosas para matar a fome aos pobrezinhos, em campanhas promovidas à exaustão pelos órgãos de comunicação social ao seu serviço, desresponsabilizando quem tem culpas no cartório e apontando o dedo acusador a quem não contribui ao menos com uma latinha de salsichas, alimento que também pode ser incluído no menu dos pedintes.
O gesto, seguramente nobre, dos protagonistas da campanha, não pode deixar de ser denunciado pelo cinismo que envolve. Eles, que são especializados em alta cozinha, para os pobres têm apenas esparguete e sopinha.
Volto ao poema de Brecht. «Em vez de serdes só bondosos, esforçai-vos/ Por criar uma situação que torne possível a bondade, e melhor/A faça supérflua!»