«PAF» e pafinhos

Henrique Custódio

A coligação PSD/CDS enjorcou «nove garantias» a fingir de programa eleitoral e auto-baptizou-se com o nome-de-guerra «Portugal à Frente» que, no judicioso aparte de Luís Pedro Nunes no Eixo do Mal, tem como acrónimo «PAF», «que é uma onomatopeia do estalo». Com mais ou menos estalada, o «programa das garantias» nada garante e, por isso, afigura-se «de estalo».

Entretanto, «esta marcha de hoje não foi inocente, marcada para este dia», perorou Maria João Ruela, vedeta da SIC, julgando dar corda a Luís Marques Mendes, o dirigente em pousio do PSD que, todos os sábados, debita palpites de esbracejo mimoso e independência granítica, no aconchego duma entrevista que não tem perguntas e apenas raros comentários, sempre cómodos para o «entrevistado».

Desta vez Marques Mendes limitara-se a introduzir a serrazinadela da noite (os «perigos» que, segundo Mendes, apoquentam a candidatura eleitoral do PS) com um elogio ao PCP e à grande manifestação nacional da CDU do Marquês aos Restauradores, naquele mesmo dia.

Posto isto, Mendes investiu para o assunto que lhe interessava, declarando que «o PS tem um problema com o PCP», que «Jerónimo de Sousa é sempre inteligente» e que «o PCP não faz nada por acaso», ao que a atenta Ruela atalhou com a supracitada «Esta marcha de hoje não foi inocente, marcada para este dia», julgando cotejar a simultaneidade da «Marcha do Povo» com a reunião do PS (ali mesmo ao lado, no Coliseu e no mesmo dia) e ir ainda ao encontro da frase de Mendes «o PCP não faz nada por acaso», que ela supôs insidiosa.

Enganou-se, e devia estar melhor informada. A «Marcha» do PCP foi decidida e anunciada em Fevereiro passado, pelo que Ruela talvez devesse dirigir-se ao PS e declarar que «este encontro do PS de hoje não foi inocente, marcado para este dia» (e para o vizinho Coliseu, já agora)...

Mas numa coisa Ruela acertou: «eram milhares e milhares» – uma manifestação gigantesca que extravasou o circuito previsto entre o Marquês e os Restauradores, em Lisboa. Sendo que o essencial nem estava no número avassalador de manifestantes, mas nos pormenores que foram inevitavelmente emergindo nos apontamentos televisivos, colhidos pelos três canais de informação por cabo.

A variedade geográfica da multidão impunha-se, literalmente vinda do Minho ao Algarve e passando pela Madeira e Açores. E as miríades de indignação, ora saídas de um católico confesso ou de múltiplos desempregados de várias durações e a mesma dureza de vida no dia-a-dia. Estava ali o País, o que trabalha e o que exige trabalhar. Estava ali a revolta nacional contra esta política de desastre. Maciça, firme, indestrutível.

Terão que a ouvir, quer os aventureiros das «garantias», quer os «mais do mesmo» do Coliseu.

 



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