Guiães

João Frazão

Guiães é nome de terra. Uma daquelas que fica por detrás dos montes e que encanta os visitantes, como as mais das terras durienses, alpendurada sobre o rio em cujas margens se produz o melhor vinho do mundo, à força do esforço, do suor, do sacrifício de homens e mulheres que nas escarpas construíram o mais belo jardim à beira Douro plantado.

Guiães tinha, segundo os censos de 2011, 478 habitantes, ou seja, tinha menos população do que duzentos anos antes, em 1801.

As crianças de Guiães frequentam a escola, no segundo ciclo, na sede do concelho, em Vila Real, a 16km de casa.

Por estes dias, em que tanto se fala de natalidade, e das medidas necessárias para a promover, pego no exemplo de três meninos de Guiães que se levantam às 6h da manhã para irem para a escola. O transporte que passava em Guiães às 7h30, passa agora às 6h50. Não há outro. Os meninos ficam com 1h40 para percorrer os 16km. Por vezes chegam à escola e ela ainda está fechada. Ficam à porta.

Quando saem da escola às 13h e não têm aulas de tarde, usam um autocarro que demora duas horas para percorrer os 16km, depois de passar por todas as terras em volta. Os meninos de Guiães não podem almoçar na escola, pois não apanhariam o autocarro. Vão almoçar a casa, mas só às 15h.

Se a última aula acabar às 16h30m, têm que esperar pelo autocarro das 18h50. Não há outro. Quando chegarem a casa serão oito horas da noite. Saindo de casa antes das 7 da manhã, passaram mais de 13 horas fora de casa.

A essa hora, depois do jantar, será ainda tempo de fazer os trabalhos.

Bem podem os arautos da política de direita, do encerramento dos serviços públicos, da entrega dos transportes aos privados, do abandono do território, da desertificação e do despovoamento do País, virem agora chorar lágrimas de crocodilo pela natalidade perdida.

Bem podem os paladinos da igualdade de oportunidades e os amantes do empreendedorismo, afirmar que, querendo, tudo é possível.

As crianças de Guiães quereriam ter um transporte público que lhes garantisse o acesso, em condições, à escola a que têm direito.

Direito que neste Abril faz anos e que aqui recuperamos para lembrar que a Constituição da República Portuguesa, que o prevê, se tem de aplicar a todo o território. Guiães incluído. Mas isso só é possível com outra política. Patriótica e de esquerda!




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