Depois do pior
A jornalista Fátima Campos Ferreira, face visível do programa «Prós e Contras», ou alguém por ela, decidiu que este seria um bom momento para começar a falar das próximas eleições presidenciais que irão ocorrer daqui a uns ainda largos meses, já em 2016. Fazendo-o, incorreu na suspeita de dar uma ajuda aos que preferem falar das presidenciais em detrimento do debate que está inevitavelmente ligado à realização das eleições legislativas, mais próximas no tempo e mais urgentes, pois bem se sabe que cada dia em que se mantém o actual Governo é dia de negrumes para o povo português, de desgraças consequentes a esta acção governativa que sobre Portugal desabou e de ameaças para novas medidas sinistras. Não será preciso fazer aqui prova desta verdade todos os dias confirmada pela realidade, mas caberá, a título de exemplo recente, lembrar a intenção de novas espoliações da remuneração de quem trabalha claramente contida numa declaração pública, escandalosa e verdadeiramente insolente, perpetrada por Passos Coelho. Temos, pois, que a pressa que percorre o País não é tanto a da substituição do Presidente da República, por muito quanto ela seja desejada, quanto a de ver finalmente o actual Governo substituído por outro que não tenha no seu cadastro a penúria, a angústia, o desespero e a fome que desde há quatro anos alastraram pelo quotidiano português. Isto é: não apenas a natural ordem cronológica impõe atenção prioritária às eleições legislativas, mas também o respeito por essa ordem confere com um anseio nacional.
Uma ampla convergência
De qualquer modo, o facto é que «Prós e Contras» abordou a próxima eleição presidencial ao abrigo de uma pergunta que serviu de título à emissão e que interrogava acerca de qual o mais conveniente «perfil» do PR a eleger. É claro que, no ponto em que estão as coisas, o tratamento deste tema ou de qualquer outro que lhe fosse afim teria como resultado mais óbvio alguma promoção mediática dos candidatos já assumidos e pouco conhecidos da opinião pública, sobretudo de Sampaio da Nóvoa, de quem muito se diz que ninguém o conhece, mas essa provável consequência não parece incomodativa, talvez porque também nesta questão o conhecer não ocupe lugar. Mas houve um outro aspecto que surgiu no decurso do programa e que pareceu tendente a tornar-se dominante: ainda que com uma ou outra excepção, aliás timidamente expressa, aconteceu uma ampla convergência de opiniões depreciativas do senhor professor Cavaco Silva e do modo como ele desempenhou as suas funções em Belém, se é que se pode dizer que as desempenhou ou se, pelo contrário, sempre elas se mantiveram empenhadas na protecção do Governo actual e da sua desgraçada acção. Na verdade, se na sala do Centro Champalimaud, onde decorreu o programa/debate, terá sido sensível um tendencial consenso, ter-se-á tratado de um sentimento de júbilo por já estar no horizonte a partida do senhor professor Cavaco talvez para longes terras, eventualmente para Boliqueime ou seus relativos arredores, de modo a que deixe de incomodar os portugueses que o suportaram durante duas longas décadas. De facto, o senhor professor foi ali implícita e mesmo expressamente eleito como «o pior» de todos os PR havidos depois de Abril, e esta pouco lisonjeira eleição até foi pontualmente reforçada com a indicação de algumas das suas mais lamentáveis características ainda que, convenhamos, não todas, porventura por falta de tempo. Assim, o programa deslizou para a previsão de como deverá ser o português que estará em Belém depois de sair o actual Presidente. Como era previsível, a pergunta não gerou resposta clara, muito menos unânime. Em verdade, o único consenso registado foi na identificação de «o pior». Pensando bem, contudo, não terá sido tempo perdido: é que o desabafo largamente partilhado também é um reconforto.