Intervenção militar no Iémen

Rússia considera ilegal

A ofensiva militar liderada pela Arábia Saudita no Iémen, cujo balanço sangrento não pára de crescer, carece de «qualquer fundamento legal», afirma o Kremlin, que defende uma saída negociada para o conflito.

Moscovo exige um cessar-fogo e a promoção de uma solução pacífica

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Em declarações a um órgão de comunicação social nacional, segunda-feira, 6, o ministro dos Negócios Estrangeiros russo notou que a operação foi desencadeada sem que o Conselho de Segurança das Nações Unidas (CS) tenha sido consultado, pelo que a intervenção é ilegal à luz do Direito Internacional.

Sergei Lavrov manifestou-se também desapontado com a ausência de posição por parte do CS e reiterou a urgência de impor um embargo à venda de armas a qualquer das partes envolvidas, de estabelecer uma trégua humanitária incondicional com carácter de emergência, e de promover uma solução pacífica para a disputa no território.

Esta foi aliás a posição defendida por Moscovo no sábado, 4, durante a discussão extraordinária pedida pelo Kremlin naquele órgão da ONU. Sem ser explícita, a Arábia Saudita, que lidera a operação denominada «tempestade decisiva» – integrada por cinco dos seis países membros do Conselho de Cooperação do Golfo (Arábia Saudita, Bahrein, Emirados Árabes Unidos, Kuwait e Catar», a que se juntaram o Egipto, Sudão e Jordânia –, recusou, na prática, interromper os ataques aéreos lançados desde 26 de Março contra as milícias huthis (um ramo chiíta) no Sul do Iémen. Posteriormente, o responsável militar pela intervenção, o general saudita Ahmed Assiri, justificou a posição assumida com a necessidade de «não abastecer as milícias» nem permitir que «o fornecimento de ajuda humanitária interfira com as operações».

O presidente do Egipto, Abdel al-Sissi, fez saber entretanto que a prioridade do Cairo é garantir a navegação no Mar Vermelho e no estreito de Bab el-Mandeb, que separa o continente africano da Península Arábica.

Neste contexto, a discussão no CS das Nações Unidas foi inconclusiva, com os membros a «pedirem tempo para reflectir» na proposta de cessar-fogo apresentada pela Rússia e defendida, antes, pelo Comité Internacional da Cruz Vermelha, que realça a rápida degradação da situação e as consequências devastadoras não apenas dos bombardeamentos, mas também da falta de medicamentos, material cirúrgico, alimentos, água potável e outros géneros e bens de primeira necessidade.

A organização humanitária diz ter cerca de 50 toneladas de material para distribuir no Iémen, mas enquanto continuarem os combates é impossível fazê-lo.

Na segunda-feira, 6, os bombardeamentos realizados fundamentalmente pelas forças armadas da Arábia Saudita concentraram-se na cidade portuária de Aden, no Sul do país, que os «rebeldes chiítas» que desafiaram a autoridade central conquistaram, somando-a à tomada, nas últimas semanas, da capital, Sanaa e grande parte do Norte e centro do território.

Os chamados «comités populares», partidários do presidente, têm sido incapazes de conter o avanço dos milicianos e Abd Rabbo Mansur Hadi refugiou-se na capital saudita, para onde seguiu igualmente, no último fim-de-semana, o primeiro-ministro demissionário, Khaled Bahah.

Ambos se encontram, assim, longe do drama humano que a guerra no Iémen está a provocar. Fonte governamental citada pela AFP estimava que desde o início dos combates em Aden já terão morrido 185 pessoas e mais de 1200 terão ficado feridas, a maioria das quais civis. Posteriormente, várias agências informaram que a disputa de Aden teria provocado, só na madrugada e dia de segunda-feira, mais de 150 mortos.

A ONU, por seu lado, calcula que pelo menos 500 pessoas foram já vitimadas mortalmente nas últimas duas semanas, mas a projecção é conservadora, desconhecendo-se, com um mínimo de rigor, os efeitos dos bombardeamentos sauditas entre a população.




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