EUA – Coincidências preocupantes
Ned Colt, ex-correspondente de guerra da NBC, morreu a 10 de Fevereiro de 2015, em Boston, de um ataque ao coração. Tinha 58 anos. Trabalhou para a estação de televisão de 1989 a 2009 como jornalista de referência. Esteve na guerra do Iraque (2003) e trabalhou igualmente para a ONU, na Síria.
Bob Simón, jornalista da rede de televisão CBS News, morreu a 11 de Fevereiro de 2015. Era um jornalista com quase 50 anos de actividade e com mais de quarenta prémios da especialidade. No momento da sua morte era correspondente do programa 60 Minutes e era definido pelo presidente da CBS, David Rhodes, como um «gigante das transmissões jornalísticas». Assistiu à retirada das tropas dos EUA do Vietname, esteve na guerra do Yom Kipopur (1973) e também na do Iraque (1991), onde foi capturado e retido durante 40 dias, o que deu origem ao livro Forty Days. A sua morte resultou de um acidente de carro em Manhattan.
David Michael Carr, escritor e jornalista do New York Times, onde cobria as notícias culturais, morreu no dia 12 de Fevereiro de 2015. Ainda não tinha 60 anos. Morreu na redacção do jornal e segundo El País, jornal espanhol insuspeito de simpatias com as causas progressistas, era de uma «honestidades que desarmava». Converteu-se numa figura pública com o documentário Page One sobre o New York Times, onde analisava a crise dos jornais de papel e a transição para os meios digitais. Carr estava grandemente desconcertado com a forma como o New York Times cobria a situação da Ucrânia e também com o facto de ter visto emblemas nazis nos capacetes dos soldados do regime de Poroshenko.
Brian Douglas William não morreu, mas no dia 30 de Janeiro de 2015 fez uma série de declarações polémicas (sobre a guerra no Iraque, 2003) na sua condição de apresentador e editor do programa NBC Night News, que levaram à sua suspensão no mês seguinte, ao que parece por um período de seis meses. Trabalhava na NBC desde 1993. Em Dezembro do ano passado, o canal renovou-lhe o contrato por cinco anos com um salário de 10 milhões de dólares anuais. A presidente da NBC disse dele que era um «dos jornalistas mais confiáveis do nosso tempo».
Aviso à navegação
O que é que une estes quatro nomes importantes do jornalismo dos EUA, os três primeiros mortos e o quarto posto no «congelador» através da destruição, justa ou não, da sua imagem profissional?
Os quatro tinham formado muito recentemente uma empresa independente de notícias de televisão e apresentado documentos que lhe permitiriam o acesso ao arquivo mais secreto do Kremlin sobre os aspectos relacionados com os atentados do 11 de Setembro de 2001. Segundo especialistas em segredos militares, os EUA e Rússia estão no ponto mais grave das suas relações desde o final da Guerra Fria e os problemas actuais são pequenos se os compararmos com os que se vêem no horizonte. Putin estaria preparado para apresentar provas da participação de Washington e dos serviços de inteligência nos ataques do 11S, que serviram para enganar e assassinar os seus próprios concidadãos e beneficiar os interesses petrolíferos do governo (e das empresas) dos EUA no Médio Oriente.
A ponta mais visível da empresa que pretendia desvelar a realidade do que se passou no 11S seria David Carr e a sua relação com Edward Snowden (via New York Times), que depois de ver o documentário Citizenfour[i] diz que não consegue dormir.
A destruição da imagem profissional de Williams e as mortes «demasiado coincidentes» de Colt, Simon e Carr apontam para uma clara mensagem dos círculos mais reacionários de Washington: não exponham os nossos segredos mais obscuros!
O facto de pairar no ar a intenção de ilegalizar os sítios de web que não comunguem com as ideias Washington aponta nesse sentido, assim como uma infame proposta legislativa da Ordem Fraternal da Polícia Nacional que passaria a classificar qualquer crítica pública contra a polícia como um «crime de ódio».
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[i] Documentário de Laura Poitras, norte-americana residente em Berlim, e várias vezes laureada pelos seus trabalhos de investigação sobre os serviços de vigilância dentro dos EUA. Entre esses galardões está o Pulitzer de Serviço Público, conjuntamente com The Guardian e The Washington Post. Citizenfour (2014) faz parte de uma trilogia sobre os 11S, e os direitos de transmissão foram adquiridos pelo Canal 4 (Reino Unido), HBO (EUA) e Norddeutscher Rundfunk (Alemanha).