Nos 40 anos do golpe
de 11 de Março de 1975

A reacção não passou!(1)

Manuel Rodrigies

Na sua edição de 13 de Março de 1975, o Avante! noticiava assim o desfecho da tentativa de golpe reaccionário de 11 de Março: «a reacção quebrou uma vez mais os dentes. Sofreu a sua maior derrota desde o 25 de Abril. Mas, não está esmagada. Se não for privada do poder económico, se não for privada dos poderosos meios de que dispõe para sabotar o avanço do processo democrático e revolucionário, voltará à carga».

De facto, depois de diversas acções de sabotagem económica, depois do golpe Palma Carlos em Julho de 1974, depois da conspiração da «maioria silenciosa» de 28 de Setembro, a reacção continuou a procurar as condições para se reorganizar e o momento apropriado para novos golpes contra a jovem democracia portuguesa.

Criadas as condições, tentou um «putsch» fascista, lançando um ataque das forças armadas aéreas e terrestres contra «uma grande unidade militar, o Regimento de Artilharia Ligeira, n.º 1, além de outras acções militares de menor envergadura», como refere a nota da Comissão Política do Comité Central do PCP emitida no próprio dia 11 de Março. Golpe falhado, segundo a mesma nota, «graças à pronta e decisiva acção do Movimento das Forças Armadas e à gigantesca mobilização popular que, em poucas horas, de Norte a Sul do País, paralisou quaisquer iniciativas fascistas e deu poderoso apoio às Forças Armadas». Nota onde se sublinhava ainda: «o dia 11 de Março evidenciou uma vez mais que o principal inimigo dos portugueses é a reacção. Para o sucesso da luta contra a reacção e pela construção de um Portugal democrático, é indispensável o isolamento de actuações divisionistas e desagregadoras e o reforço da comunidade das forças populares em todos os sectores, da unidade dos trabalhadores, da unidade das forças democráticas, assim como o reforço da aliança do movimento popular com o Movimento das Forças Armadas».

E a nota da Comissão Política acrescentava que «a tentativa de golpe de 11 de Março foi derrotada. Mas não é de crer que a conspiração abrangesse apenas os responsáveis já conhecidos. Alguma coisa falhou no plano e isso significa que houve conjurados que, por qualquer razão, não entraram em acção», concluindo pela necessidade de «manter bem viva e actuante a vigilância popular, ao lado do Movimento das Forças Armadas, para impedir qualquer surpresa».

O povo veio para a rua

Referindo-se ao golpe, no comício do PCP no Estádio 1.º de Maio em Lisboa, a 16 de Março de 1975, Álvaro Cunhal reafirmava que «a tentativa de golpe militar é inseparável da ofensiva política e diplomática contra-revolucionária que se vinha desenvolvendo nos últimos meses». E apontava, em concreto, os elementos centrais dessa ofensiva: «a monstruosa campanha anticomunista dos últimos meses, a intriga contra o MFA, a intensificação da sabotagem económica, violências e golpes de mão em sindicatos e escolas, os boicotes de congressos e comícios, a multiplicação de manifestações antigovernamentais a pretexto de justas reclamações, a agudização artificial dos conflitos sociais, a tentativa para a precipitação sem razões válidas da nova vaga de greves, constituíram, no seu conjunto, uma grande ofensiva contra-revolucionária, deteriorando a situação política, criando um clima de caos e de insegurança, de que eram responsabilizadas as forças revolucionárias.» E onde se incluía também, como peão no jogo da contra-revolução, e convergindo objectivamente para o mesmo fim, «o papel dos grupos pseudo-revolucionários neste período (participando praticamente em todas as provocações)». E realçava que «o fracasso do golpe mostrou que há oficiais, sargentos e soldados fiéis ao MFA e ao Povo Português, capazes de fazer frente nas respectivas unidades a oficiais facciosos, se eles aparecem». E acrescentava: «No dia 11 de Março, uma vez mais o povo português se atravessou no caminho da contra-revolução. O povo veio em massa para a rua, os operários pararam as fábricas para cercarem os quartéis em apoio ao MFA, nas vilas, nos campos, logo as massas populares acorreram a ligar-se às Forças Armadas, a isolar os fascistas e a desorganizar ou impedir a sua movimentação. A classe operária, o campesinato, as massas populares, as forças democráticas, mais uma vez mostraram que estão dispostos a bater-se pela liberdade e que estão em condições de cortar o caminho à reacção».

Derrota que levou à imediata institucionalização do MFA e à criação do Conselho da Revolução cujas primeiras decisões foram as nacionalizações da Banca (14 de Março) e dos Seguros (15 de Março). «Medidas históricas – como referia Álvaro Cunhal no mesmo comício – que abrem caminho a transformações democráticas essenciais da economia portuguesa em benefício do povo e do País».

Sobre a unidade necessária à defesa do processo revolucionário e à construção de uma sociedade democrática a caminho do socialismo, em que se integravam estas medidas, Álvaro Cunhal reafirmaria no Comício do PCP em Setúbal, a 29 de Março de 1975: «o PCP sempre fez, faz e fará todos os possíveis (e mesmo os impossíveis) para conseguir unir na acção todas as forças sociais e políticas interessadas no processo democrático, interessadas em levar ao seu termo as tarefas da revolução portuguesa». Esforço que, nos dias de hoje e nas condições actuais, o PCP prossegue na sua intensa acção, «em estreita ligação com os democratas e patriotas, os trabalhadores, a juventude, o povo português, (…) por uma política patriótica e de esquerda, por uma democracia avançada, inspirada nos valores de Abril, por um Portugal com futuro, pelo socialismo e o comunismo». (Resolução do Encontro Nacional do PCP de 28 de Fevereiro).
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(1) Título do Avante! de 13-03-1975




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